USD: R$ 5,23
BTC: R$ 377.532,15
EUR: R$ 6,08
GBP: R$ 7,00

Código de Ética do Kung Fu

1: Introdução

De origem milenar, e sem certezas quanto ao seu criador, o Kung Fu surgiu por volta de 2.070 a 1.600 a.C., na China. Seu nome, do mandarim, significa Trabalho Árduo. Não é vista somente como uma arte marcial e sim como uma arte marcial em conjunto com uma filosofia de vida prática. Assim, seus praticantes afirmam que tudo que existe, ou tudo que se faz é Kung Fu; o que faz sentido se considerarmos a tradução literal de seu nome.

Kung Fu e a ética
Representação de movimento de Kung Fu

Seus movimentos quase mágicos chegaram às telas por meio de Bruce Lee, ator chinês e praticante assíduo de Kung Fu. Outros atores seguiram seus passos, mas Bruce Lee é considerado o precursor.

Os movimentos são inspirados nos movimentos de animais. Para alguns o Kung Fu é considerado uma meditação em movimento porque acalma a mente. Permite um desenvolvimento em equilíbrio do corpo, das emoções e da mente, ajudando a combater o estresse e manter o autocontrole.

Existem diversos estilos, cada qual com suas técnicas. Alguns estilos são: Serpente, Águia, Tigre, Dragão, Macaco e Louva-a-Deus. Estes estilos guardam relação entre a técnica e os movimentos dos animais que os nomeiam.

2: Wude

Wude (武德), no mandarim, significa MORALIDADE MARCIAL. É; portanto, a Ética dentro das artes marciais chinesas, o que inclui o Kung Fu. WU tem relação com “marcial” e DE tem relação com “virtude; moral; bom caráter”. Wude faz referência à boa ação, justa e equilibrada.

Dois aspectos têm o Wude com relação à Virtude:

  • Virtude da Ação e
  • Virtude da Mente

A Virtude da Ação ou ainda Virtude do Caráter tem relação às boas práticas das relações humanas no meio social. Ou seja, preza pela política do bom cidadão, da boa relação entre as pessoas. Os principais aspectos são: Confiança; Honestidade; Humildade; Lealdade e Respeito.

Já a Virtude da Mente tem relação com o indivíduo, e não com o social, com a sociedade. Busca desenvolver o indivíduo. Os principais aspectos são: Coragem; Paciência; Perseverança; Resistência e Vontade.

Kung Fu e meditação
Praticante de Kung Fu em estado meditativo, ilustração

O Wude trabalha não somente o indivíduo ou a sociedade, mas ambos. Assim, na visão do Wude, é possível a constante melhora da sociedade como um todo, bem como do próprio indivíduo. Duas palavras podem resumir o Wude: CARÁTER e VIRTUDE.

A Virtude para o indivíduo, e o Caráter diante da sociedade. Logo, o Wude é mais que apenas uma arte marcial, mais que um simples combate, é uma filosofia completa que permite o desenvolvimento da sociedade e do indivíduo.

Nas artes marciais e, no caso, no Kung Fu, o respeito é algo inerente à própria prática da arte marcial. Todos devem ter respeito pelos demais praticantes e todos devem respeitar a hierarquia, onde, os mais graduados devem saber ensinar aos menos graduados e estes devem saber ser ensinados e orientados.

Isso faz parte de algo maior que é a HARMONIA, algo muito comum no extremo oriente e que se reflete, de forma natural, na cultura das artes marciais. A Harmonia é algo presente na vida dos povos orientais, desde que levantam até a hora de se deitarem, podendo ser visto na organização de suas casas e afazeres do diário viver.

3: A Virtude da Ação

Virtude da Ação ou Virtude do Caráter são aspectos a serem exercidos na sociedade.

3.1: Humildade

É a primeira virtude a ser citada porque, segundo a filosofia Wude, é a humildade que nos permite aprender e continuar aprendendo, o que não tem limite. É considerada a base das demais virtudes, um pilar.

Toda aprendizagem conquistada é resultado de um caminho bem percorrido e que novos desafios nos aguardam. Entender isso é fundamental para continuar a aprender. Por isso a humildade é um pilar; pois, nosso crescimento será proporcional à capacidade de entender que sempre temos o que aprender. Por isso a Humildade é a primeira virtude a ser citada.

É Humildade aprender a reconhecer os méritos e aprendizagem dos demais. Sair do seu mundo e reconhecer aos demais é exercer a Humildade e mesmo que não a tenhamos ou sintamos empatia pelo progresso alheio, ainda que isso nos fira de inveja, saber externar isso já é um começo.

Isso é o exercício da Humildade em um nível mais superficial, mas não deixa de ser uma forma de exercer a Humildade. O fato de conseguir reconhecer isso para si e melhor, conseguir reconhecer publicamente, já é um passo em favor da Humildade.

3.2: Respeito

O Respeito está associado à Humildade, isso porque, um orgulhoso não respeita seu adversário em um combate, o menospreza. O Respeito não é somente com seus superiores, mas também com aqueles que estão abaixo. Quem Respeita uma pessoa, sabe Respeitar a todas.

Isso porque o Respeito é algo que se exerce a todo momento. Há quem não Respeite a religião alheia; há quem não Respeite a opinião divergente dos demais. O Respeito está raro nos dias de hoje e isso acaba por gerar uma série de conflitos. Basta acessar as redes sociais e ver o que uma opinião divergente pode causar quanto ao desrespeito.

Respeitar é permitir que o seu semelhante exerça a Liberdade que tem. Todos temos direito de ser, de agir, de pensar e sentir como queiramos e temos que saber Respeitar isso. Cada qual é como quer ser. Cada qual fala e opina o que quer. E isso temos que saber Respeitar.

A humanidade marcharia muito melhor se houvesse Respeito pelas diferenças ou divergências. Tudo marcharia muito melhor. Da tese e da antítese surge a síntese e dessa síntese, nova tese e antítese surge e destas uma segunda síntese, e assim por diante. Assim nos ensina o filósofo alemão Hegel (Alemanha; 1770 – 1831; Alemanha), em sua magna obra, FENOMENOLOGIA DO ESPÍRITO.

Assim, a divergência deve ser tomada como forma de diálogo e não como forma de discussão. Do diálogo surge a síntese. Entretanto, isso só é possível através do exercício do Respeito.

Ridicularizar quem pensa diferente é cruel para quem sofre e típico de idiotas para quem provoca esse papel. Já diz o ditado: “Só os idiotas riem do que desconhecem”.

Respeitar não é concordar, mas sim permitir que o outro seja ou fale o que quer. Respeitar é permitir que cada qual expresse sua liberdade.

3.3: Honestidade

Ser Honesto é ser SINCERO consigo mesmo. É fazer o que se deve fazer e fugir daquilo que não se deve fazer, encarando as consequências, mesmo que estas não sejam agradáveis, e esse é o desafio.

Devemos aprender a ser Honestos em palavras com os demais. Não precisamos ser mal educados ou usar palavras que firam, mas devemos cultivar a Honestidade em nossas relações humanas.

Quando alguém nos pede para sermos Honestos, devemos sê-lo. Devemos medir nossas palavras para não ferir ou machucar, devemos saber polir nosso verbo e junto a isso tudo, devemos ser Honestos.

A Honestidade nas palavras, nos faz, naturalmente, ser Honestos nas mais variadas áreas da vida. Isso porque as palavras são expressão do que pensamos e sentimos e nossas ações são fruto desses aspectos psicológicos. Logo, se pensamos e sentimos de forma Honesta, nossas ações serão Honestas. Nosso termômetro são nossas palavras.

A pessoa é Honesta na sua vida na mesma proporção que o é em suas palavras. Esse termômetro é confiável. Façamos essa análise não aos outros, mas a nós mesmos e vejamos o quão Honestos nós somos. Muitas vezes somos Honestos por conveniência social, mas no fundo, se em uma oportunidade ninguém souber de nosso delito, se soubéssemos que não seremos punidos, seríamos, de fato, Honestos? Aqui cabe citar o ANEL DE GIGES. Fica a reflexão!!!

As pessoas falam que gostam das pessoas Honestas, mas basta uma palavra Honesta a nossa pessoa, que nosso mundo desmorona e a Honestidade alheia, mesmo que polida em suas palavras, passa a ser uma agressão, uma afronta. Fica a pergunta: De fato, queremos e buscamos a Honestidade?

A fábula nos conta que Diógenes de Sinope andava pelas ruas de Atenas com uma lanterna, durante o dia, procurando um homem virtuoso. Essa fábula serve para hoje, na busca de alguém, realmente Honesto consigo mesmo, que exerça suas próprias convicções, independentemente dos demais e da sociedade.

3.4: Confiança

Toda pessoa honesta é de Confiança. A Confiança é como um porto seguro onde a pessoa consegue dar credibilidade à outra pessoa. Não significa uma crença cega, mas sim um ato natural de credibilidade onde a dúvida é superada pela convicção.

Não se pode exigir Confiança, ela é conquistada em um longo caminho entre as partes envolvidas. Um único ato falho pode nos fazer perder Confiança que foi conquistada por anos. Difícil sua construção e fácil de perdê-la.

A Confiança de uma pessoa exala credibilidade a não só uma pessoa, mas a todas em seu entorno. Ela é construída pela regularidade e integridade de nossas próprias ações. É pautada na honestidade e na sinceridade, fragrâncias raras e exóticas nos dias de hoje que compõem a (verdadeira) amizade.

A Confiança é uma ponte à Alma das pessoas. Quem tem essa ponte construída pode se considerar rico porque raras são as pessoas que conseguem cultivar a exótica flor da Confiança no jardim da vida.

3.5: Lealdade

Devemos ser Leais às nossas causas. Não devemos ser teimosos, o que incorreria em não sermos humildes, mas se estamos convictos de nossas ações, devemos ser Leais a nós mesmos. Só quem é Leal a si mesmo é Leal aos demais.

A Lealdade cria laços familiares com as demais pessoas. Diz Shakespeare que amigos são a família que escolhemos ter. Isso se mantém por laços de Lealdade. Um erro não deve ser fator para deixarmos nossa Lealdade.

Existe um conto que diz assim:

Um patrão tinha muitos servidores. Cada vez que um servidor cometia um erro ele o mandava para o canil onde tinha dez cães bravos que sempre devoravam os escravos que lá eram colocados. Uma vez um servidor que tinha dez anos de casa cometeu um erro. O patrão mandou lançá-lo ao canil para ser devorado. O pobre escravo pediu, pelos dez anos que serviu a ele, dez dias, um dia por cada ano de sua serventia. O patrão concedeu o prazo solicitado.

O servidor pediu para que nestes dez dias pudesse limpar o canil e alimentar os cães, o que foi concedido pelo responsável pelos cães. Assim fez o servidor e ao término dos dez dias, o patrão o chamou e o jogou ao canil.

De forma inusitada para o patrão, os cães vieram lamber e festejar com o servidor. Incrédulo, o patrão perguntou o motivo disso ao que o servidor disse: “Eu alimentei e limpei o canil e dei banho nos cães por dez dias e eles estão sendo Leais a mim. Eu lhe servir por dez anos e por um único erro, você manda me matar”.

Envergonhado, o patrão pede desculpas ao servidor e cancela a pena conferida.

A Lealdade deve saber reconhecer que somos débeis, que todos podemos errar, mas que isso não nos faz menos merecedores da Lealdade que temos a oferecer. Nos dias de hoje esse conto deve ser entendido e aplicado em nossas vidas.

4: A Virtude da Mente

A Virtude da Mente são aspectos a serem exercidos pelo indivíduo e tem muito da meritocracia.

4.1: Vontade

Já diz o jargão popular, 1% de inspiração e 99% de transpiração. Na Vontade reside uma das chaves para o triunfo. A Vontade é uma das expressões da meritocracia. Imaginar um atleta vencedor sem vontade é utópico.

Vontade e meritocracia andam de mãos dadas. Quanto mais anelamos triunfar, mais Vontade temos que impor em nossas ações. Nada, simplesmente nada, é obtido ao acaso. Tudo nos tem um preço e esse é pago com nosso próprio esforço, com dedicação.

A Vontade nos ajuda a manter nosso foco em momentos de desânimo, o que é natural de acontecer. Se não há Vontade, nestes momentos, abandonamos nossos objetivos. Devemos saber diferenciar entre Vontade e desejo. Esse último é pueril e frágil, e se desvanece ante uma dificuldade qualquer.

Já a Vontade é régia e inabalada e mesmo nos momentos de dificuldade, nos mantemos firmes. A Vontade se constrói com disciplina. Há que ter uma rotina que incorpore essa disciplina. E são as dificuldades os trampolins para o sucesso.

Murmurar é de fracos, superar desafios com força e galhardia, é para os fortes. Estes impõem, em sua vida a Vontade como elemento de vida.

4.2: Resistência

A Resistência é conforme nossos objetivos. Se você quer colher rosas, saiba que terá de enfrentar os espinhos. Para todo projeto que se empreenda, sempre, sem exceção, haverá uma força contrária.

Para você construir uma casa, enfrentará desafios. Quanto maior a casa, maiores são os desafios porque maior é a obra. Se você vai abrir uma empresa, se esta for pequena, as exigências são menores. Caso a empresa seja maior, as exigências serão maiores.

Isso representa que toda investida contará com alguma Resistência. Se queremos trinfar, devemos saber suportar estas dificuldades, devemos ter a devida Resistência e vontade para essa superação. Resistir às duras provas e dificuldades que nos são apresentadas é sinônimo de triunfo, de que estamos no caminho certo. Resistir é suportar quando o único que temos a fazer é suportar.

A Resistência se desenvolve com a compreensão. Se compreendemos o atual estado e temos claro nosso objetivo, a Resistência é um elemento que, de forma natural, vai surgir de nosso interior. O poeta maranhense Gonçalves Dias, disse em seu poema Canção do Tamoio:

Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.

Temos duas opções na vida: Ver o triunfo alheio ou ser o triunfador. A Resistência nos confere a força para suportar as dificuldades e superá-las. A escolha é de cada qual.

Kung Fu
Movimentos típicos do Kung Fu

4.3: Perseverança

A Perseverança é manter a continuidade de propósitos. Mesmo que o ontem nos abale ou que o amanhã nos assuste, devemos nos manter firmes no hoje. As dificuldades vão surgir, mas devemos ter claro nosso objetivo e mirar no nosso foco.

Não se permitir desviar é ser Perseverante. É muito fácil se desviar, difícil é se manter firme, manter a continuidade de propósitos. Quem Persevera sempre alcança o que quer. Isso tem profunda relação com a meritocracia.

A Perseverança nos ajuda na constante aprendizagem. Aquele que tem a capacidade de sempre estar aprendendo tem em si, de forma latente, a Perseverança. Esse é um termômetro que nos ajuda a ver, em nós mesmos, o quão Perseverantes somos em nossa vida. Se somos do tipo que sempre estamos querendo aprender, então somos Perseverantes na mesma proporção do entusiasmo que temos para aprender.

4.4: Paciência

Um jargão diz:

Não importa chegar, mas sim saber chegar.

Isso resume, em boa media, a Paciência. Na vida precisamos do tempo como elemento catalisador do amadurecimento de nossas análises e de nossas ações. A Paciência é a Ciência da Paz. É saber aguardar o momento certo, a oportunidade certa, sem se afobar.

A Paciência permite que a aprendizagem tome forma e consistência. Saber não é conhecer. Entender não é compreender. A continuidade de propósitos e o tempo são aliados para o triunfo e nessa trajetória, a Paciência é algo crucial porque do contrário não teremos a maturidade para aguardar o momento almejado.

A Paciência, por ser a Ciência da Paz, nos convida à reflexão porque a Paz está na mente dos homens. Quando o homem controla seus pensamentos e não se permite invadir por uma avalanche ou um turbilhão de pensamentos, está em paz consigo mesmo.

A Paz é um estado interior. Impossível impor a Paz com guerras como se vê hoje em dia. A Paz é um estado de lassidão da mente. Quanto mais convulsionada a mente, menor a Paciência de uma pessoa. A Paciência sabe aguardar de forma confiante o futuro, ao mesmo tempo em que trabalha, por meio de ações, por isso.

Ter Paciência é não se permitir convulsionar como todo mundo faz. É estar atento a tudo, mas não se identificar com nada que tire seu centro.

4.5: Coragem

Todos temos medo. Superar e encarar seus medos é o que chamamos de Coragem. É Coragem fazer o que deve ser feito sem se preocupar com a opinião alheia, arcando com as consequências disso.

Teve Coragem Galileu Galilei ao afirmar que a Terra orbitava o Sol. Ele arcou com as consequências disso e não se importou. Quantos de nós faríamos o mesmo?

Coragem é ter uma opinião diferente de todos e mesmo assim expressá-la diante destas pessoas. Ter Coragem é ter a capacidade e a hombridade de exercer suas aptidões e dar suas opiniões, independentemente onde se esteja ou com quem se esteja.

Ter Coragem é ser transparente. Ter Coragem é ser sincero. Ter Coragem é sempre ter a capacidade de dizer a verdade. Ter Coragem é saber assumir seus erros, por mais que nos doa.

Só quem tem Coragem é capaz de escrever seu próprio destino, não sendo um mero fantoche do grande oceano embravecido da vida. Só os corajosos são capazes de morrer por uma causa justa. O filósofo gnóstico Teófilo Bustos, disse:

Prefiro ver a tumba onde jazem os valentes a ver o caminho por onde fugiram os covardes.

Esta frase resume o valor que tem a Coragem na Ética do Kung Fu.

5: Conclusão

O Código de Ética no Kung Fu, o Wude, é um Código que contempla aspectos sociais e aspectos individuais. Cada qual tem seu valor e sua aplicação.

Com relação ao Código da Virtude de Caráter, este destinado à sociedade, vemos a importância que é dada à transparência do indivíduo quando das relações com seus semelhantes. Com relação ao Código da Virtude da Mente, vemos a importância que é dada na autoafirmação do indivíduo e a necessidade que tem de desenvolver a sua superação, para que assim possa triunfar.

É um Código que pode ser aplicado em nossas vidas para o desenvolvimento harmonioso de nossas aptidões e habilidades, bem como o salutar desenvolvimento da sociedade. Recorda-se que o núcleo mais reduzido da sociedade é o indivíduo e se esse está bem consigo mesmo e sabe se relacionar com a sociedade, então, tudo vai bem.