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Experimento Libertário em Grafton

Relato

O Experimento Libertário de Grafton ocorreu na cidade de Grafton, no estado de New Hampshire, nos Estados Unidos, no início dos anos 2000, dentro do contexto do movimento Free Town Project, que pretendia reunir libertários em uma mesma comunidade para colocar em prática seus ideais de mínima intervenção estatal e autogoverno.

A ideia começou a ganhar corpo por volta de 2004, quando libertários de diferentes estados se mudaram para Grafton, uma pequena cidade com pouco mais de mil habitantes, atraídos pela possibilidade de viver sem impostos altos, com regulamentações reduzidas e maior liberdade individual. Estima-se que algumas centenas de pessoas tenham aderido ao movimento em diferentes graus, embora o número de residentes libertários fixos tenha ficado em algumas dezenas.

Entre os nomes mais citados estão Jason Sorens, acadêmico e fundador do movimento Free State Project, que inspirou iniciativas como a de Grafton, e outros ativistas locais que se tornaram figuras centrais na tentativa de remodelar a política municipal. O que aconteceu ao longo dos anos, no entanto, foi bem diferente do ideal esperado: a redução de serviços públicos, especialmente no combate a incêndios e na coleta de lixo, gerou insatisfação entre moradores, e a ausência de regulação atraiu situações inesperadas, como o aumento de conflitos de vizinhança e até a proliferação de ursos que passaram a invadir propriedades em busca de alimento, já que não havia um controle comunitário eficaz sobre o manejo de resíduos.

A experiência também resultou em disputas internas entre os próprios libertários e em tensões com os habitantes mais antigos da cidade, que viam o movimento como uma imposição externa. Embora não tenha acabado em um colapso formal, o projeto de Grafton acabou se esvaziando.

Vamos apresentar uma breve linha do tempo, de forma cronológica, dos principais acontecimentos do Experimento Libertário em Grafton:

2004–2005 – Início do movimento. Libertários inspirados pelo Free State Project decidem se mudar para Grafton, New Hampshire, com a proposta de reduzir (i) – impostos locais; (ii) – cortar serviços públicos e (iii) – viver de forma mais autônoma.

2006–2007 – Surgem as primeiras tensões entre moradores antigos (já presentes na cidade) e recém-chegados. Os libertários propõem cortes orçamentários em Assembleias locais, especialmente em serviços como corpo de bombeiros, manutenção de estradas e policiamento.

2008–2009 – Há uma redução efetiva de serviços públicos. O corpo de bombeiros, que era constituído de pessoas voluntárias, perde o financiamento local; estradas deixam de receber a manutenção adequada no inverno, o que dificulta a vida dos moradores e os põem em perigo e; a coleta de lixo torna-se irregular. Cresce o acúmulo de resíduos nas propriedades e isso atrai a fauna local.

2010–2011 – Aumento de conflitos comunitários. Pequenas disputas entre vizinhos, antes resolvidas de maneira informal, passam a ser levadas a tribunais, elevando o número de ações judiciais na cidade. A própria cidade foi alvo de muitos ajuizamentos a partir de seus moradores devido ao aparente descaso com os serviços públicos. A relação entre os libertários e os moradores de longa data, começa se deteriorar. O convívio começa a ficar tenso.

2012–2013 – Episódios de insegurança. Com a diminuição da presença dos policiais, os libertários defendem autodefesa, ou seja, a própria população local deve ser capaz de se proteger. Os libertários defendem também a presença de patrulhas comunitárias, mas mesmo assim moradores relatam sensação de vulnerabilidade.

2014–2015 – Cresce a presença de ursos negros na cidade. A falta de regulação e regularidade no serviço de coleta de lixo, resíduos e alimentos atrai os animais, que começam a invadir propriedades e até residências. O problema vira notícia fora de Grafton. A presença de ursos, tão temida, é uma realidade.

2016–2017 – O projeto perde força. Muitos libertários que haviam se mudado abandonam a cidade diante das dificuldades práticas e dos conflitos sociais. A comunidade local retoma maior controle das decisões municipais.

2020 – O episódio de Grafton ganha repercussão nacional e internacional com a publicação do livro A Libertarian Walks Into a Bear (Um Libertário encontra um urso), de Matthew Hongoltz-Hetling, que documenta toda a experiência e seus desdobramentos.