1: Introdução
O Judô é uma arte marcial japonesa criada por Jigoro Kano (Japão; 1860 – 1938; Japão) em 1882. Judô (柔道) significa caminho suave. É composto por dois kanji; “柔” (Jū) que significa “Suave” ou “Gentil” e “道” (Dō) que significa “Caminho”.
Sua composição se deu a partir do Jiu-jitsu com o intuito de propiciar uma arte marcial capaz de promover defesa pessoal tendo como princípio a máxima eficiência com o mínimo esforço, o que é conhecido no Judô como Seiryoku Zen’yo.

A lógica do Seiryoku Zen’yo é usar a força do oponente contra ele mesmo. Na prática do Judô isso é feito desequilibrando o adversário e aplicando um golpe eficaz. Essa ideia é levada ao diário viver onde busca-se sempre soluções inteligentes e criativas de forma evitar desperdício de energia vital.
Disso surge a filosofia do Judô e sua Ética para a vida. O Judô busca o desenvolvimento físico, mental e moral do indivíduo. Para isso possui base em três princípios.
2: Os Três Princípios do Judô
Os três Princípios do Judô formam a base de toda a filosofia desta arte marcial. Estes princípios são:
2.1: Seiryoku Zen’yo
Significa, máxima eficiência com mínimo esforço. Na prática representa o uso inteligente da força, de estratégias para lograr atingir seus objetivos. Ensina que não se deve desperdiçar energia e que o foco é necessário.
Todo esforço deve ser bem empregado. No geral, muito esforço, além do cansaço e da frustração, geram resultados insatisfatórios. Antes de começar qualquer empreitada devemos avaliar estratégias. Isso é o que esse princípio nos ensina.
Isso vale para qualquer área da vida. Por isso a filosofia do Judô é uma filosofia para a vida, não somente aplicada no exercício da arte marcial.
No mundo de hoje, se preza por estar sempre lotado de compromissos, mesmo que eles não nos confiram lucros ou bem-estar. Mas na ideia disseminada em nossa sociedade, o excesso de compromissos é sinônimo de sucesso.
Entretanto, o excesso cobra e a vida se esvai como em água que escorre pelo ralo. E quando nos deparamos com essa realidade, nossa saúde debilitada, percebemos que corremos demais e conquistamos pouco ou menos que o esperado.
Assim, o princípio do Seiryoku Zen’yo nos ensina a sermos comedidos em nossas ações de forma que o que fizemos seja bem feito, e que com isso tenhamos resultados satisfatórios. Não é necessária uma agenda repleta de compromissos para alcançarmos nossos objetivos.
Esse princípio nos ensina ainda a nos adaptarmos. Isso porque, em situações, aparentemente adversas, no lugar de lutar contra a situação podemos nos adaptar a essa nova realidade. É a filosofia oriental que diz que o rio vai longe, até ao encontro com o mar porque contorna os obstáculos, e não se detém neles.
2.2: Jita Kyoei
Significa, bem-estar mútuo. Tem relação com o respeito, a dignidade e a humildade. Na prática do Judô e na vida, esse princípio nos ensina que todo oponente merece respeito. Jamais devemos menosprezar nosso oponente porque o oponente é também nosso professor. Ele nos permite com que vejamos nossas falhas e debilidades para depois aprimorá-las. Não temos inimigos, todos são nossos Mestres.
Assim, esse princípio nos ensina a manter o devido respeito a tudo e a todos, uma atitude mística ante à vida. Aquele que sabe respeitar seu oponente reconhece que ainda pode aprender porque não se coloca como alguém superior, mas alguém com quem vai praticar e com ele aprender.
Assim, a humildade é um fator importante nas artes marciais, o que inclui o Judô. Quando se está aberto para estar sempre aprendendo, essa condição é a humildade, já que reconhecemos que sempre podemos nos aperfeiçoar.
Saber respeitar seu oponente é ato de dignidade humana. Ninguém gosta de estar ao lado de alguém que menospreza seus semelhantes. Certo é que sempre terá adeptos, mas a maioria sempre rechaça esse tipo de atitude, fazendo com que aquele que seja desrespeitoso ou falte com dignidade a outra pessoa seja mal visto.
Assim, o princípio Jita Kyoei nos ensina a ver a grandeza dos outros, um tipo de atitude mística. Saber ver a grandeza dos outros nos permite ver nossa própria grandeza. Aquele que não consegue reconhecer a grandeza alheia, só o que vê é seu próprio ego, jamais sua própria grandeza.
2.3: Ju
Significa, suavidade. Sua relação é com a Consciência. Quanto mais consciência uma pessoa tenha menos força ela vai dispor contra outra pessoa. Por exemplo, em uma discussão de duas pessoas, cada qual quer ofender mais e assim a discussão não acaba. Entretanto, se uma das pessoas ponderar e no lugar da desinteligência aplicar a inteligência, a discussão pode acabar naquele instante.
Entretanto, no geral, o que nos interessa é fazer valer nosso ponto de vista. E assim deixamos de aplicar esse princípio e nos metemos e nos mantemos em confusão.
O princípio Ju se relaciona com a aplicação da lógica, da razão objetiva, da consciência. Se encaramos a vida desta forma veremos que muitos problemas deixam de existir. Por exemplo, muitos de nós ficamos preocupados quando temos que pagar uma conta e não temos dinheiro. Ora, se não temos dinheiro e não temos onde conseguir, então não há o que fazer até que tenhamos dinheiro. Assim, a preocupação é desnecessária porque não há o que fazer.
Se aplicarmos essa lógica, veremos que muitos problemas deixam de existir porque quando não temos o que fazer, simplesmente não há o que fazer. Essa é a inteligência do princípio Ju.
3: Os oito Princípios do Código Moral do Judô
Estes princípios devem ser incorporados pelo praticante do Judô dentro e fora da prática da arte marcial. Fora da prática esportiva ela assume um papel de filosofia de vida.
3.1: Amizade (Yūjin)
Busca estreitar laços sinceros para fortalecimento do grupo. A amizade é construída a partir do respeito e da cooperação entre as pessoas e possui forte vínculo e busca ser construída para toda a vida.
3.2: Autocontrole (Seigyo)
Necessidade de controlar instintos, emoções e ações impulsivas. A calma, o exercício do equilíbrio e a tranquilidade são elementos necessários para o autocontrole. O autocontrole permite que tudo ao nosso redor esteja harmônico e em paz. É um trabalho diário e constante para obter êxito no autocontrole, o que requer disciplina.
3.3: Coragem (Yūki)
Relação com a capacidade de enfrentar e superar medos e situações difíceis, sem se deixar desviar do seu rumo, ainda que as situações nos abatam, não se deixar desviar. Buscar agir com firmeza e determinação ante às situações da vida. Manter atitude firme e perseverante ante tudo e ante todos.
3.4: Cortesia (Rei)
Ser respeitoso com todos e exercer a boa educação para com todos e em todas as situações. Não se deixar abater ante afronta e desinteligência alheia, mantendo-se firme na cortesia e na educação. Ser sublime no trato com os demais. Isso é visto como um princípio Ético.
3.5: Honestidade (Seijitsu)
Ser sempre verdadeiro, fazendo uso da verdade e da sinceridade. Ser íntegro nas suas palavras e nas ações cotidianas. Ser honesto, acima de tudo, consigo mesmo. Desta forma seremos honestos com os demais. Jamais enganar alguém ou fazer trapaças. A verdade, a sinceridade e a honestidade têm papel de destaque no Judô e na cultura marcial e oriental como um todo.
3.6: Honra (Meiyo)
Exercer a lealdade e o respeito dignificam uma pessoa. Assim, uma pessoa honrada é uma pessoa a qual é respeitada e admirada pelos demais porque sabe ser leal a si e às pessoas e às causas que defende, bem como sabe respeitar e reconhecer o valor dos demais.
3.7: Modéstia (Kenkyo)
Saber reconhecer seus limites, sem tentar escondê-los ou disfarçá-los. Saber reconhecer seus méritos e avanços sem se deixar ser tomado pelo orgulho, arrogância ou soberba. Saber reconhecer o mérito dos demais, de forma sincera. A modéstia nos permite saber reconhecer nossas falhas e debilidades de forma natural o que nos faz estar dispostos sempre a aprender, em prol de um maior desenvolvimento e aperfeiçoamento. Somente quem sabe reconhecer suas falhas e debilidades pode se corrigir e, assim, se aperfeiçoar. A modéstia está associada à humildade.
3.8: Respeito (Sonkei)
Saber acatar as regras e saber valorizar os amigos e oponentes que existam. Saber reconhecer que todos têm seus méritos, sejam amigos ou oponentes. Devemos saber reconhecer que o outro tem valor e assim como nós, tem suas virtudes e seus defeitos e debilidades. Tem relação com a mística porque permite ver a grandeza do outro, o que nos permite ver a nossa própria grandeza. Como descrito no princípio Ju, quem vê grandeza nos outros enxerga sua própria grandeza e quem não reconhece a grandeza alheia, nunca vê sua grandeza, enxerga somente seu próprio e iludido ego.