1: O Anel de Giges
O ANEL DE GIGES é um relato que aparece no livro A REPÚBLICA de Platão (Grécia Clássica; 428–348 A. C.); em seu segundo livro. Ele é um elemento que permite que quem o use possa se tornar invisível.
O nome do anel é em virtude do rei Giges (??? – 644 A. C.). Ele governou a Lídia, atual Turquia, na chamada Ásia Menor, entre os anos 680 A.C. – 644 A.C tendo sido o fundador da Dinastia Mérmnada.

2: Giges e a versão de Heródoto
De acordo com o historiador grego Heródoto (Halicarnasso, atual Turquia; 484 A.C – 425 A. C., Túrio, atual Itália), Giges foi um usurpador que tomou o trono da Lídia após assassinar o rei Candaules.
Segundo o relato histórico, feito por ele em sua obra “Histórias”, livro I, capítulo 8-14, Giges era um dos guardas do rei Candaules. Candaules, rei da Lídia, era casado com uma mulher (Heródoto não indica o nome da rainha) considerada muito bonita. Ele, Candaules, estava tão orgulhoso da beleza dela que queria compartilhar isso com Giges, seu guarda real.
Candaules convenceu Giges a esconder-se em seu quarto para ver sua esposa nua. Giges, inicialmente relutou, mas acabou concordando. Quando ele viu a rainha nua, se apaixonou por ela.
A rainha, por sua vez, descobriu que Giges a havia visto nua e, envergonhada, exigiu que Giges fizesse uma escolha: (i) – escolher morrer ou (ii) – casar-se com ela e matar o rei Candaules e, por consequência, tomar o trono.
Giges escolheu matar o rei e, com a ajuda da rainha, assassinou Candaules enquanto ele dormia. Giges então casou-se com a rainha e tornou-se o novo rei da Lídia.
3: Giges e a versão Platônica
Segundo a história platônica, Giges, que era um pastor (da Lídia), encontrou, em uma caverna, um misterioso anel de ouro. Quando o colocou, descobriu que se tornava invisível. Com esse poder, Giges conseguiu seduzir a rainha, matar o rei e se tornar o novo governante da Lídia.
Estudiosos e intérpretes da obra de Platão crêem que o relato metafórico de Platão utiliza o nome Giges porque o rei de mesmo nome ascendeu ao poder por meios questionáveis, conforme relatado por Heródoto, vacilando sua ética e comportamento para tal. Nessa toada, Platão constrói sua narrativa.
4: O que é de fato o Anel de Giges?
Segundo o relato de Platão, a partir do diálogo com Glaucon, o Anel de Giges é um artefato mágico que permite que aquele que o use possa se tornar invisível. Isso tem como consequência colocar em análise o que podemos fazer nessas condições.
Permite questionar quais são nossos limites e qual a diferença entre o justo e o injusto e, se de verdade, o justo é de fato justo nestas condições. Platão põem em discussão até onde a virtude tem seu valor em cada pessoa, já que o uso do Anel permite não sermos responsabilizados por nossas ações, uma vez que, por estarmos invisíveis, ninguém pode nos culpar pelo que fazemos de errado.
Assim, agimos certo por convicção ou por convenção social ou até mesmo por fugir do constrangimento social e da aplicação das leis humanas e a vergonha perante a sociedade por cometermos delitos?

5: Análise comentada da obra de Platão
Vamos fazer análise de alguns trechos da obra de Platão.
“Suponha (…) dois (…) anéis mágicos, e o justo põe um deles e o injusto o outro; nenhum homem pode ser imaginado como sendo de tal natureza ferrenha que permanecesse sustentado na justiça. Nenhum homem poderia manter suas mãos longe do que não fosse seu quando ele pudesse, com segurança, tomar o que quisesse do mercado, ou entrar em casas e deitar-se com qualquer um a seu bel-prazer, ou matar ou libertar da prisão os que ele quisesse, e em todos os aspectos ser como um deus entre os homens.“
Aqui Platão evidencia a dificuldade de que um justo na sociedade possa se manter justo nestas condições, quando, se tornando invisível, não vá usar isso em seu benefício próprio. Ele não consegue acreditar que exista homem com natureza tão ferrenha, tão dedicado à justiça, que vá se manter livre de ações imodestas. Isso pode ser resumido na seguinte questão: O poder corrompe. Na verdade a corrupção está dentro do ser humano, e a oportunidade de agir sem ter consequências é o evento que permite aflorar a natureza corrupta já existente no ser humano.
Assim, Platão questiona quem teria a força de vontade suficiente para não se deixar vacilar? Isso, existe, isso seria possível por algum homem (obviamente homem no sentido genérico, cabendo a homens e a mulheres)?
“Então as ações do justo seriam como as ações do injusto; eles chegariam finalmente ao mesmo ponto. E isto nós podemos verdadeiramente afirmar ser uma grande prova de que um homem é justo, não por sua vontade ou porque ele acha que a justiça é algum bem para si individualmente, mas por necessidade (…).“
Aqui Platão indica que, nestas condições, não há diferença entre um justo e um injusto. Que todos se nivelam por baixo, todos se igualam ao injusto. A ausência de consequências às ações não nos impõem limites. O que nos rege é satisfazer nossos desejos. O anel é uma oportunidade de satisfazer nossos desejos mais íntimos, sem consequências. Seríamos como um Deus, sem limites e sem consequências. Tudo pode ser nosso, é só querer.

Platão coloca que um justo na sociedade o é porque a sociedade tem regras a serem cumpridas e por medo do constrangimento se mantém dentro destas regras, não por consciência, e sim por medo destas regras sociais os quais podem alcançá-lo. Platão incita a ideia de que agimos por convencionalismos sociais e não por convicção de nossas próprias consciências. Quem nos guia são as regras sociais e não nossa consciência.
“(…) Se tu puderes imaginar alguém obtendo este poder de se tornar invisível, e nunca fizer nada errado ou tocar o que era de outrem, esse seria considerado pelos observadores como o mais miserável idiota (…).“
Aqui Platão aponta que um justo, que tendo o poder de se tornar invisível se mantenha como justo é julgado pelos demais como o maior dos idiotas. Platão demonstra a inversão de valores, onde, no lugar de se admirar um justo este é tomado como um tolo.
Isso ocorre, obviamente, porque o julgamento destes é feito por alguém que, nas mesmas condições, agiria como injusto. Isso resulta que, para Platão, encontrar um justo é matéria quase impossível.
6: Análise metafórica do Anel de Giges
A metáfora levantada por Platão permite uma série de análises quanto à ética e ao comportamento humano. Ele permite avaliar as convicções de uma pessoa e o que ela faz por convenção social e o que ela faz por convicção. Ele permite levantar os seguintes debates:
A: O SER E O PARECER
Platão permite avaliar o Ser e o Parecer. O SER é o que somos de fato, independentemente da existência ou não do Anel. O que fazemos ou faríamos sem ou com o Anel? Isso é o que somos de fato. Por outro lado, o que fazemos ou faríamos com a presença do Anel e o que não faríamos sem ele? Isso é o PARECER. O real no ser humano não é o parecer e sim o SER. O SER, em si, é nossa real natureza, porque, independentemente do anel, somos sempre o mesmo, sem mudanças ou subterfúgios. O SER é o real e o PARECER é algo artificial, feito por meras convenções que, quando perdem o sentido, ou poder sobre nós, agimos por nossos próprios impulsos sem considerar o certo e o errado. E fica o questionamento: Quantas vezes agimos por convenções, somente PARECENDO? Quantas vezes, realmente SOMOS? SER implica na transparência e sinceridade de nós mesmos e quantas vezes somos sinceros e transparentes realmente?

HAMLET (1599-1602), peça de Willian Shakespeare (Inglaterra; 1564 – 1616), traz a célebre frase: “Ser ou não Ser; eis a questão.” A frase reflete sobre aceitar e encarar a realidade ou fugir dela.
B: A CONVICÇÃO E A CONVENÇÃO SOCIAL
Platão nos permite refletir sobre nossas ações, se agimos por real convicção, guiados por nossa consciência ou se agimos por mero formalismo da convenção social, com suas regras e leis. Nossas ações são guiadas por uma ética ou guiada por medo de sermos constrangidos pelas penalizações por nossa conduta?
C: A JUSTIÇA E O CARÁTER HUMANO
Platão nos permite analisar nossa natureza. Somos justos por excelência, ou porque a sociedade nos apresenta regras de conduta? Uma pessoa justa é justa independentemente da situação, no caso, com ou sem o uso do Anel de Giges. Isso porque a justiça é parte de sua natureza. Já uma pessoa que vacile, ainda que não cometa erros, mas que pense neles, pense em fazer, mesmo que não faça, não é pessoa que tenha em sua natureza a justiça. O agir ou o não agir, mesmo que haja vacilação, é sinônimo de que a justiça, em sua integridade, não faz parte da natureza dessa pessoa. A questão é: Até onde somos justos? Até onde cometemos erros e até onde não nos permitimos errar? Aí está o caráter humano. O caráter humano está associado ao que se mantém constante, logo, é a parte da justiça que faz parte da natureza humana. Mas quanto de justiça faz parte da natureza humana? Essa é a reflexão! Ou, em outras palavras, até onde nos permitimos corromper? Até onde somos justos?
D: BOM CIDADÃO E BOM HOMEM
Outra análise a partir da metáfora de Platão é que nem sempre o Bom Cidadão é um Bom Homem. Um bom cidadão é aquele que é bem visto na sociedade, aquele que respeita as regras e normas sociais. Entretanto, ele, na posse do Anel de Giges, será ainda um bom cidadão? Se sim, então ele é um Bom Homem. Do contrário, não. Logo, Um bom homem é um bom cidadão, mas nem sempre (segundo Platão, quase nunca) um bom cidadão é um bom homem.
E: A ÉTICA
Toda a análise de Platão é para que possamos refletir acerca do comportamento humano. Em síntese, nos permite verificar o quanto somos éticos e o quanto estamos distantes da ética. Para isso utiliza a metáfora do Anel de Giges e seu poder mágico de nos tornar invisíveis. A análise pode ser aplicada a cada um de nós, nos explorando de modo entender até onde somos éticos e onde nossa ética acaba. É um ótimo exercício de auto exploração.
7: O Anel de Giges nos dias atuais
A ideia filosófica do Anel de Giges pode ser aplicada em várias situações nos dias atuais. Trazemos dois pontos que consideramos relevantes. Trazemos ainda uma análise feita ao ser humano.
REDES SOCIAIS E A INTERNET
Muitas vezes fazemos comentários em redes sociais ou na internet porque conseguimos passar como pessoas anônimas. Assim, por não sermos responsabilizados ou por ser difícil de sermos responsabilizados, fazemos comentários sem nos preocupar com a penalização. A questão é: Se todos os comentários fossem responsabilizados, até onde iríamos nesses comentários?
POLÍTICA
Hoje muito da política é transmitida para que possamos ter a transparência. Entretanto, não raro, surgem ideias por parte de políticos para que determinadas votações sejam feitas “às cegas”. Caso todas as votações não pudessem ser vistas pela população, como seria a votação por parte dos políticos? A votação seria sempre a mesma?
O SER HUMANO
A seguinte situação ilustra, de forma muito interessante o Anel de Giges. Imagine você uma pessoa que você não gosta e que tem vontade de falar algumas verdades a ela, mas, por faltar coragem ou por medo de coação você não diz nada e reprime isso. Agora imagine que você tem um sonho e que nesse sonho você fala tudo o que gostaria de falar a essa pessoa.
Isso que relatamos é algo muito comum. Muitas pessoas que reprimem sua ação no mundo físico, tal como relatado, acaba projetando essa vontade e sonha em esse desejo reprimido. Muitas pessoas já tiveram essa experiência.
O que é o mundo real, onde não temos coragem de falar? São as convenções sociais; é o parecer. O que é o sonho? São as nossas reais convicções; é o que somos. Aí está a metáfora do Anel de Giges.
8: Conclusão
O Anel de Giges é uma metáfora que põem em voga a discussão entre Ética e Poder. Até onde vai nossa ética e onde começa o uso do poder para favorecer nossos desejos? Até onde somos responsáveis e morais em nosso comportamento e quando começa a injustiça e o descaso?
Em suma, o Anel de Giges nos permite avaliar o quanto somos guiados por nossos baixos impulsos e o quanto nos guia nossa consciência? Essa é a ideia de Platão.