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Análise do Discurso Político

I: Introdução

Para muitos a linguagem política e a jurídica são incompreensíveis. Devemos, entretanto, ter uma visão mais clara sobre isso e devemos saber separar os elementos. A linguagem jurídica, por exemplo, possui terminologia técnica, o que a torna específica. Logo, entender sua linguagem implica conhecer essa terminologia de antemão.

Na política, no caso específico dos discursos, a linguagem permite extrair uma infinidade de informações que estão obliteradas. Para isso não há a necessidade de conhecimento prévio de uma linguagem, já que ela é feita a partir da linguagem coloquial. O que não nos faz ter essa análise é a falta de treino para extrair a fala que não é falada, mas que é subentendida.

Nesse artigo vamos apresentar 12 pontos que nos permitirão analisar a realidade escondida nos discursos dos políticos. Desta forma você terá a possibilidade de ter uma compreensão real do que eles dizendo, não falam.

II: Roteiro

O roteiro que vamos apresentar não deve ser entendido de forma aplicá-lo em sequência, mas sim aplicá-lo conforme necessidade contextual. Seguem os elementos.

1: Reconhecimento de boa gestão do adversário político
2: Reconhecimento de má gestão pessoal
3: Propostas infundadas
4: Ausência de coerência
5: Desvio da atenção
6: Falsificação de feitos
7: Fomentar inimizades e criar inimigos
8: Ideias fixas e recorrentes
9: Uso de eufemismos
10: Seleção proposital de dados
11: Legitimação simbólica do discurso
12: Hipótese democrática absurda

Estes são os elementos que vamos comentar em sequência.

1: Reconhecimento de boa gestão do adversário político

Quando um político que disputa o pleito eleitoral com o atual mandante, e fala algo semelhante a: “A atual gestão é um fracasso na gestão de saúde pública“. Essa afirmação não está falando de uma realidade de fato sobre a gestão da saúde pública, mas afirmando a opinião que a maioria dos eleitores tem sobre o assunto. Com isso o político opositor tenta denegrir a imagem do político da situação para obter para si a devida identificação com o eleitor e angariar votos.

Entretanto, podemos ouvir algo semelhante a: “Podemos melhorar a gestão da saúde pública“. Devemos colocar atenção na palavra “melhorar”. Isso significa que o opositor sabe que a população reconhece uma boa gestão na área de saúde pública, entretanto, como opositor ele não vai reconhecer os méritos da atual gestão. Por isso, no lugar de reconhecer ele afirma que “podemos melhorar”; porque, em realidade, não é visto como ruim pela população e afirmar que está ruim, algo que a população vê como bom, é obter rechaço, ainda que inconscientemente por parte da população e isso nenhum político quer.

2: Reconhecimento de má gestão pessoal

O economista ganense George Ayittey (GANA; 1945 – 2022; EUA), em sua obra Africa Unchained: The Blueprint for Africa’s Future, afirma:

A tendência predominante entre os déspotas africanos para ocultar seus fracassos é atribuir os problemas da África aos efeitos do tráfico de escravos, do neocolonialismo e do imperialismo.

Esse é o fundamento para reconhecermos a má gestão atual. Quando o atual gestor, após ter administrado por um período de tempo imputa culpa a um passado, na verdade ele está dizendo: “Fui um incompetente, e como não posso reconhecer isso, culpo à gestão anterior pelo meu fracasso e incapacidade.”

Não existe culpa passada. Existem efeitos e consequências do passado, mas todo gestor é responsável pela sua gestão e se ela fracassou, a culpa e responsabilidade é dele. Mesmo porque temos que ter claro que antes de vencer o pleito ele sabia da situação em que tudo se encontrava e, certamente, apresentou soluções que não conseguiu lograr.

3: Propostas infundadas

É proposta infundada afirmar propostas semelhantes a: “vou acabar com a fome”; “vou acabar totalmente com o desemprego”; “vou investir em educação”, neste caso, sem apontar quanto de verba será destinada e como estas verbas vão viabilizar esse processo. Todo promessa assim, é vaga, subjetiva e busca gerar uma esperança a qual não tem bases sólidas, é vão palavrório.

Geralmente, estas propostas vêm acompanhadas de uma crise emotiva por parte dos presentes. Ademais, propostas assim demonstram, ao mesmo tempo, a falta de ética e falta de propostas concretas.

4: Ausência de coerência

Na mesma linha dos discursos vagos, temos a ausência de coerência quanto a propostas, fugindo totalmente do foco com uso, exagerado de apelo emocional. Expressões como “crianças sem rumo”; “crianças sem futuro”; “povo sofrido”; “nossa gloriosa nação”; são expressões com caráter apelativo, algumas com caráter vexatório, outras com caráter de orgulho pátrio, mas ambas estratégias buscam evadir a atenção do público, ao mesmo tempo que, por meio do apelo emocional, buscam contagiar sua simpatia.

Discursos assim são comuns em todos os países. Ditadores, sejam de extrema-esquerda, sejam de extrema-direita, são usados para conquistar a população ou mantê-la refém do sistema.

5: Desvio da atenção

Quando um gestor público busca culpados externos, esse gestor está, na verdade desviando a atenção para que não se exponha sua incompetência. Expressões como “a culpa “é do FMI”; “a culpa é do país X”; “a culpa é da dívida externa”; “a crise internacional nos prejudicou”; “a especulação imobiliária foi determinante para nossa crise”; “a taxa de juros do país X prejudicou nossa economia”.

Ora, se todo Estado é soberano, ele deve, por razões conceituais e de existência, prover os feitos necessários para obter os caminhos mais viáveis para seu desenvolvimento e, culpar a um inimigo externo, é assinar certificado de incompetência, além de ser um meio de desviar a atenção das crises internas.

6: Falsificação de feitos

Quando o gestor atual, geralmente, opositor ao gestor anterior, aparece com muitas obras feitas em pouco espaço de tempo, isso pode ser – e é na maioria dos casos – apropriação indevida de obras (alheias). Isso ocorre quando um gestor fala, algo semelhante a: “construímos 30 escolas em 1 ano”; “construímos 20 hospitais em 2 anos”. Temos que estar atentos para ver se isso não se deve a obras do gestor anterior com nomes distintos.

Essa prática é comum, não somente a obras materiais, mas também a planos e estratégias que mudam de nome, mas mantém o mesmo modus operandi. Uma das formas que pode nos fazer desconfiar é o volume de obras em pouco tempo.

7: Fomentar inimizades e criar inimigos

Isso é feito através da polarização. “Dividir e reinarás”; frase explorada por Maquiavel. Um político busca colocar a população contra seu adversário político. Frases como “somos nós contra eles”; “enquanto eles buscam privilégios, nós pensamos no povo”. Independentemente da realidade, o fato é que isso gera polarização.

Nenhuma polarização é saudável. Isso incita a população e pode trazer consequências trágicas, conforme o grau da polarização. A polarização é uma forma de obter adeptos por meio emocional, não por propostas. Todo convencimento emocional é fundamentado em inconsciência humana. Somente propostas e diálogos são formas dignas de convencimento político.

8: Ideias fixas e recorrentes

Esta é fácil de identificar. Repetir a mesma frase em um mesmo discurso, ou repetir a mesma ideia várias vezes é sinal de querer fortalecer uma ideia, de gravá-la em nosso subconsciente. Essa frase deve ser analisada porque pode ser uma forma de oposição velada aos opositores políticos. É comum que um slogan político retrate mais a oposição política que representar a si mesmo.

9: Uso de eufemismos

Uso de expressões para suavizar, disfarçar a verdade. São exemplos:

Ajuste fiscal” em vez de “corte de gastos sociais”;
“Redução de pessoal” em vez de “demissão em massa”;
“Reestruturação administrativa” em vez de “corte de secretarias e órgãos públicos”;
“Medidas de contenção” em vez de “congelamento de investimentos”;
“Readequação orçamentária” em vez de “redução de verbas da saúde/educação”;
“Contribuição previdenciária complementar” em vez de “aumento de impostos”;
“Flexibilização das leis trabalhistas” em vez de “retirada de direitos dos trabalhadores”;
“Parceria público-privada” em vez de “privatização parcial de serviços públicos”;
“Atualização das tarifas” em vez de “aumento no preço da conta de luz/água/transporte”;
“Operação de pacificação” em vez de “ocupação militar em comunidades”;
“Dano colateral” em vez de “mortes de civis em operações”;

Estas expressões têm por base reduzir o impacto negativo e as críticas imediatistas. Isso é muito comum em telejornais que, ao noticiar, tiram o peso negativo do noticiário com uso de expressões mais suaves. Isso tem muito do experimento social Reconstrução da Destruição de Automóveis. Ler aqui

10: Seleção proposital de dados

Isso permite criar uma narrativa parcial e dedicada aos propósitos que interessam. É comum alterar o limiar econômico de pobreza para afirmar que sua gestão foi capaz de erradicar a pobreza. Podem haver pesquisas estatísticas enviesadas, de forma obter os dados que nos interessam. Por exemplo, fazer uma pesquisa como está o Brasil um dia depois de ele ter ganho a Copa do Mundo. Isso é um dos tantos exemplos possíveis.

11: Legitimação simbólica do discurso

Evocar personalidades históricas ou elementos religiosos para legitimar o discurso. Frases como “Deus nos abençoou como nação, por isso…”; “Deus não quer que nosso povo sofra…”; “Já disse o poeta: o ridículo mata e mata sem sangue (Lima Barreto), portanto…”.

Essa é uma manipulação apelativa de tipo emocional. Usamos uma autoridade, notoriamente reconhecida, para amparar nosso discurso. Importante destacar que podem ser usadas ações como meio de justificar as ações do político ou gestor.

12: Hipótese democrática absurda

Afirmar mecanismos impossíveis. Por exemplo: “em nosso governo vamos ouvir todos, sem exceção”. Isso não possui solidez institucional, porque é impossível concretizá-la. Logo, qualquer proposta absurda, é subjetiva e demonstra falta de propostas objetivas.

13: Conclusão

Como pudemos notar, a análise de um discurso não é tão difícil quanto possa parecer. Na verdade, é muito provável que ao longo da leitura você tenha rememorado algum discurso de algum político. Logo, se você estudar esse artigo você será capaz de entender e explicar a verdade por trás dos discursos.

Isso é importante para o exercício de uma democracia plena, não se deixando enganar pela demagogia do meio político. Mais que isso, você será capaz de ter uma visão real das propostas reais e não de simples e vão palavrório subjetivo e apelativo.