I: Introdução
Você, cidadão comum, recebe no período de eleições, uma verdadeira enxurrada de informações e de propostas políticas que tentam, grosso modo, convencê-lo de que este ou aquele político é a melhor opção para receber seu voto. Propostas, todas fundamentadas e, em tese, pautadas na boa intenção buscam seduzir o eleitor e conquistar sua atenção e apreço.
A estratégia funciona. Estratégia esta por vezes construída propositalmente, e outras apenas continuada por mera imitação de um mecanismo retórico e de desvio de atenção que poucos captam.
O que ocorre, na maioria das vezes, é que o debate ideológico é o que entra na arena do debate e o pragmatismo e a solução prática, real, ficam em segundo plano, quando não são simplesmente esquecidos.
Este artigo pretende analisar situações em que uma proposta política é construída predominantemente a partir de uma identidade ideológica, sem que seja devidamente submetida à realidade do problema concreto que pretende solucionar.
Em outras palavras: por que a ideologia se sobrepõe à realidade? Quem faz isso? Por que age assim? E, principalmente, o que acontece quando a discussão sobre a solução passa a ser mais importante do que o próprio problema que precisa ser resolvido? E algo terrível: Quase ninguém percebe isso!
II: Roteiro
O roteiro a ser analisado neste artigo tem os seguintes elementos:
1: Privatização x Serviços de Qualidade
2: Quantidades de Obras x Alteração do status quo
Vamos seguir com as análises pertinentes
1: Privatização x Serviços de Qualidade
O primeiro a apontar é que a privatização é um meio e não um objetivo. Isso significa dizer que a privatização não é uma questão ideológica e de discussão pautada apenas no espectro político.
Um segundo ponto, tão importante quanto o anterior, é que a privatização, em si, em termos gerais, não é boa ou ruim. É, apenas um meio.
Quem nunca se deparou com a discussão entre a esquerda e a direita que debatem e discutem sobre a possibilidade de privatizar ou não alguma empresa/serviço? Provavelmente todos já nos deparamos com isso.
Entretanto, quem já se deparou para uma análise quanto ao fato real em si. Quanto às vantagens e desvantagens práticas ao cidadão, dos dois lados dessa mesma moeda?
Quem já viu um debate além do mero e superficial argumento que pouco se afasta do campo ideológico? Por exemplo: De um lado se afirma que a privatização vai ser ruim à população porque no futuro o serviço terá custo elevado. Do outro lado se diz que o serviço poderá ser universalizado.
Esse é o esquema que se vê. Entretanto, tem algo que não se vê e não se fala.
Trazendo um exemplo clássico: Privatizar ou não privatizar os serviços de saneamento básico?
Veja, caro leitor, Uma parcela da sociedade afirma que privatizar vai encarecer o serviço à população. Independentemente de qualquer análise, o fato é que na maioria das vezes essa afirmação é desprovida de um estudo econômico de fundo.
Pois bem, sigamos! Do outro lado a afirmação é que os serviços serão melhorados e expandidos, de forma a universalizá-los. Entretanto, tal qual o caso anterior, raramente existe um estudo ou até mesmo um termo de comprometimento real nesse sentido com a provável empresa que vai assumir os serviços. Quem do setor público, executivo ou legislativo, pode assegurar a intenção real de uma empresa? Uma promessa não deve ser confundida com uma obrigação mensurável.
Mas fora isso, o ponto principal reside no fato de que ninguém sequer menciona a qualidade atual do saneamento básico e suas precariedades e extensão. Eles são sim utilizados como argumentos a favor ou contra a privatização, mas não constam, em termos gerais, com estudos reais do impacto de como o saneamento têm impactado as diversas regiões e populações locais.
Ou seja, a discussão paira em privatizar ou não. Não é sempre que se traz à tona, à discussão, a qualidade atual, pretérita e seus impactos à população. A ideologia se torna mais importante do que a realidade que o cidadão vive.
Fica uma pergunta: Como decidir se um modelo é melhor se sequer estabelecemos adequadamente qual problema precisa ser resolvido?
Importa mais vencer um debate na arena política – como temos visto constantemente – a encarar uma realidade com vistas à sua solução. E o mais terrível disso tudo é que muitos dos políticos, alguns muito bem-intencionados, não conseguem ver que apoiam uma ideologia em detrimento à realidade.
Se apontarmos o erro para ele, fatalmente vai dizer que está defendendo o direito do povo. E, na maioria das vezes, essa sinceridade é aterradora, porque impede vislumbrar a luz de novas descobertas.
O mesmo raciocínio pode ser aplicado à energia elétrica, às telecomunicações, ao transporte e a outros serviços: antes de discutir quem deve prestar o serviço, é necessário compreender qual problema existe, quais resultados são necessários e quais mecanismos podem produzi-los.
NOTA 1: O que normalmente se discute
- Privatizar ou não;
- Público ou privado;
- Esquerda ou direita;
- Tarifa;
- Lucro.
NOTA 2: O que se deveria ser analisado
- Cobertura atual;
- Qualidade;
- Continuidade;
- Perdas reais comprovadas;
- Investimentos necessários;
- Custo e viabilidade econômica;
- Capacidade de universalização;
- Impacto territorial;
- Impacto social;
- Impacto sobre populações vulneráveis;
- Metas claras e devidamente definidas;
- Fiscalização planejada;
- Resultados e índices definidos.
2: Quantidades de Obras x Alteração do status quo
Outro ponto muito relevante são as obras públicas. Quem nunca ouviu um candidato à reeleição, ou a novo cargo público dizer algo do tipo: Construí mais de 100 escolas. Construí mais de 40 hospitais.
Naturalmente, sem sombra de dúvidas, obras são importantes, mas estas não devem ser apenas números, algo quantitativo. Devemos ter qualidade quanto aos serviços e instituições que servem ao cidadão.
Vamos começar nossa análise utilizando como exemplo as escolas.
É comum ouvir candidatos falarem que vão acrescentar uma ou outra disciplina quando de seu mandato. Robótica, língua estrangeira, economia ou empreendedorismo são as mais citadas. Mas ninguém fala em três pontos essenciais:
i: Reforçar a grade escolar já existente
ii: Acrescentar disciplinas relevantes, hoje, ausentes
iii: Criar programa continuado de capacitação aos professores
Quanto a “reforçar a grade escolar já existente” nenhum candidato fala, por exemplo, de acrescentar Cálculo Diferencial básico no ensino médio, ou incluir, em literatura, autores como Shakespeare, Dostoievski ou Cervantes. Existem sistemas educacionais que adotam currículos mais amplos ou diferentes daqueles praticados no Brasil, e a comparação internacional pode oferecer elementos importantes para a discussão sobre o que deve compor a formação escolar.
Não se trata de criticar a construção de novas escolas, o ponto não é esse. A questão é não trazer ao debate a melhora da grade escolar. Deveríamos perguntar: Que formação queremos proporcionar ao aluno?
Com relação a “acrescentar disciplinas relevantes, hoje, ausentes” podemos fazer uma lista aqui bastante expressiva e extensa. Produção textual, Estudos literários, Análise crítica a obras de arte (literatura, música, pintura, entre outras), Estatística, Geoquímica, Cosmologia, Tecnologia, Comunicação em língua estrangeira desde a tenra idade; são alguns dos muitos exemplos possíveis.
Não se vê debates entre candidatos apresentando esse tipo de proposta. Tudo fica no superficial. Números de escolas e acrescentar empreendedorismo e robótica, quando muito.
Por fim, “criar programa continuado de capacitação aos professores” é fundamental. Todo profissional deve continuar estudando, e os professores, não são uma exceção. Quando se vê propostas falando de algo concreto e realmente capaz de proporcionar mudanças que amparem os professores e os desafios do mundo de hoje?
Se fala em propostas para aumentar os salários – e não temos nenhuma crítica quanto a isso – essa não é a análise. A análise é que pouco se vê propostas concretas para alterar o status quo.
O exemplo da escola é ilustrativo, mas podemos expandir nossa percepção para hospitais, adaptando a realidade. Aqui não cabe falar de grade escolar; mas podemos apontar melhores condições físicas de nossos hospitais. Também não cabe apontar incluir novas disciplinas; mas cabe falar de equipamentos adequados à realidade que a medicina atual ostenta. Garantir um programa continuado de capacitação, isso deveria ser uma plataforma de debate para levar isso a todos os profissionais, não somente professores e médicos. Mas, quem vê esse tipo de proposta?
Falamos de índices das escolas. Fala-se do SUS e sua abrangência e extensão. Mas ninguém fala da realidade do cidadão o qual não tem uma grade escolar compatível e comparável com a Europa, ou do tempo absurdo de espera para alguns tratamentos ou consultas pelo SUS. Essa realidade, muito pouco se fala.
Aqui, mais uma vez a ideologia e a autopromoção superam a realidade vivenciada pelo cidadão comum. Realidade que poucos querem enfrentar, a não ser na forma de críticas ao seu opositor, mas não para trazer solução real.
A pergunta, portanto, não deveria ser apenas quantas escolas foram construídas, quantos hospitais foram inaugurados ou quantas alterações foram realizadas. A pergunta fundamental é: o que efetivamente mudou na vida do cidadão?
3: Conclusão
Vimos no primeiro elemento analisado que o meio substitui o fim. No segundo vimos que a atividade substitui o resultado. Isso porque quando a ideologia determina antecipadamente a resposta, o debate pode deixar de investigar adequadamente a pergunta.
O maior interessado nos serviços é aquele que vai utilizá-lo. Mas esse, que é o cidadão, fica, no geral, de fora quanto às considerações em propostas políticas. A arena política é, naturalmente tensa, mas o uso da ideologia – seja de forma intencional ou não – faz com que a sociedade como um todo saia prejudicada.