1: Autoria e cronologia
Este experimento foi idealizado e conduzido pelo psicólogo estadunidense Stanley MILGRAM (EUA; 1933 – 1984; EUA) no ano de 1961, na universidade de Yale. O experimento teve motivação nos acontecimentos da segunda grande guerra mundial com relação às ações da Alemanha e suas horrendas práticas de holocausto.
No mesmo momento o alemão Otto ADOLF EICHMANN (Alemanha; 1906 – 1962; Israel) estava sendo julgado em Israel. Adolf Eichmann era tenente-coronel da Alemanha nazista e um dos maiores articuladores do holocausto.
O julgamento do alemão foi motivação determinante para o experimento de Milgram sobre a obediência a autoridades. Muitas vezes contestando nossa própria convicção, aceitamos e cumprimos ordens de superiores. Milgram é o mesmo pesquisador que realizou o experimento dos Pequenos Mundos onde ele apresenta que entre qualquer pessoa do mundo existe, no máximo, seis graus de separação.

O experimento de Milgram rendeu muitos bons frutos. Em primeiro lugar a publicação no Journal of Abnormal and Social Psychology (Vol. 67, 1963 Pág. 371-378) sob o título Behavioral Study of Obedience, no ano de 1963.
Em 1964 Milgram foi agraciado pela American Association for the Advancement of Science ao receber o prêmio anual em Psicologia Social. Em 1974 publicou seu livro: Obedience to Authority: An Experimental View. Neste ele apresenta os resultados de sua pesquisa sobre obediência e autoridade.
NOTA: Abunda no ambiente virtual, de forma lamentável, textos e vídeos afirmando que este experimento foi bizarro ou polêmico. Ora, quem faz esse comentário desconhece a sua motivação e a forma como ele foi conduzido. O mesmo é válido para quem afirma que o experimento foi antiético. Em momento algum faltou ética no experimento, exatamente o contrário. A forma como foi ele foi conduzido demonstra a ética profissional de Milgram. Ademais, muitos destes comentários querem atrair atenção a si com uso de palavras e expressões polêmicas. O triste é que algumas destas pessoas acabam por interpretar isso tentando maldizer e fazendo crer que um trabalho que foi premiado foi mal conduzido. A interpretação de cada um é livre. A VOX HOMINIS se sente na obrigação de fazer essa digressão, deixando esse adendo reflexivo aos nossos leitores.
2: Objetivo
O estudo buscava entender o motivo que leva pessoas a aceitarem e a dar cumprimento a ordens mesmo quando isso está contra suas crenças e convicções ou contraria o senso comum e a lógica.
3: O Cenário do experimento
Em um ambiente havia duas salas que se comunicavam visualmente por uma divisão constituída parcialmente de vidro. Em uma das salas havia duas pessoas, um chamado de professor e outro era o pesquisador, o qual era um ator. Esta sala vamos denominar de sala do professor. Na outra sala estava o aprendiz, que na verdade era outro ator. A esta sala vamos denominar como sala do aluno.
Na sala do professor havia uma máquina geratriz de tensão elétrica, a “máquina de choque”. Na sala do aluno havia uma cadeira de choque, teoricamente, conectada à máquina. Este era o cenário do experimento.

4: Metodologia
Participaram do experimento 40 homens voluntários com idades entre 20 e 50 anos com variável nível de estudo e profissões. Foi feito um anúncio no jornal prometendo o pagamento de US$ 4,00 por aproximadamente uma hora de experimento e mais 50¢ para pagar o traslado.

O aluno (ator) deveria aprender do professor (o voluntário que estava analisado) uma sequência de palavras. Cada vez que errasse essa sequência o professor deveria aplicar choques elétricos ao aluno. A cada erro o choque elétrico aumentava em intensidade. Havia 30 posições, com 30 diferentes intensidades de tensão elétrica.
A menor tensão era 15 volts, e a maior era de 450 volts. A cada erro a tensão anterior era acrescida de 15 volts. Ou seja, no primeiro erro a tensão dispendida ao aluno, pelo professor, era 15 volts, no segundo erro era de 30 volts, na terceira era de 45 volts, e assim sucessivamente.

A máquina de choque na verdade não dava choque. O aluno, que era um ator, representava estar sendo percorrido por uma corrente elétrica. Os gritos e gemidos foram gravados previamente para, junto com a atuação dos atores, causar a sensação verdadeira ao professor (aquele que era alvo do estudo) que o choque era real e que este causava dor.
Era comum que o professor não quisesse continuar com os choques, recordando que eles eram progressivos (incremento de 15 volts). Para testar a obediência do professor havia a terceira pessoa que era o pesquisador, que também era ator. Ele incentivava que o professor continuasse, mesmo que o aluno (ator) implorasse para ele parar. Esse incentivo era um conjunto de frases, em um total de 4.
Quando o professor não queria aplicar o choque (falso), era proferida a primeira frase. Se continuasse a se negar a aplicar o choque, era proferida a segunda frase. Assim seguia até a quarta frase. As frases paravam de ser proferidas quando o professor aplicava o choque ou chegando na quarta frase, o professor não aplicava o choque. Nessa altura o experimento era encerrado.
O experimento só se encerrava em dois momentos; (i) – quando após proferida a quarta frase o professor se negava em aplicar o choque no aluno ou (i) – quando se chegava na tensão máxima de 450 volts. As frases, chamadas de estímulo, utilizadas eram:
FRASE DE ESTÍMULO 1: Please continue / please go on (Por favor, continue)
FRASE DE ESTÍMULO 2: The experiment requires you to continue (O experimento requer que você continue)
FRASE DE ESTÍMULO 3: It is absolutely essential that you continue (É absolutamente essencial que você continue)
FRASE DE ESTÍMULO 4: You have no other choice but to continue (Você não tem outra escolha a não ser continuar)
Ao final do experimento, Milgram entrava na sala onde estava o professor e o pesquisador (ator), se passando por auxiliar do pesquisador. Milgram questionava por que o professor (pessoa analisada) continuava a proferir os choques mesmo diante da dor e da súplica por parte do aluno (ator).
5: Resultados
Foi constatado que 65% dos participantes foram até os 450 volts. Todos os participantes foram até os 300 volts. Um total de 14 (ou seja, 35% dos 40 voluntários analisados) voluntários pararam antes dos 450 volts, na seguinte constituição:
5 voluntários pararam em 300 volts
4 voluntários pararam em 315 volts
2 voluntários pararam em 330 volts
1 voluntário parou em 345 volts
1 voluntário parou em 360 volts
1 voluntário parou em 375 volts
6: Conclusões
Os resultados demonstram que a maioria segue a autoridade em detrimento de suas próprias convicções. Percebe-se que uma parcela (35%), em algum momento questionou a autoridade em favor de suas convicções, vendo o triste espetáculo da dor alheia (esta, encenada), preferindo enfrentar a autoridade a ter que produzir mais dor.
Milgran antes de realizar seu experimento entrevistou psiquiatras que afirmaram que apenas 0,1% iriam chegar aos 450 volts e que a maioria iria parar entre 150 – 300 volts. A previsão dos psiquiatras resultou falha!
Por fim, a conclusão do experimento é: Pessoas são motivadas a obedecerem ordens de autoridades mesmo que isso esteja contra suas próprias convicções.