1: Introdução
Uma forma de compreender as diversas culturas e a evolução do pensamento humano é por meio do estudo dos contos e das mitologias.
Os contos mitológicos tiveram origem no período pré-histórico, como uma maneira simbólica de explicar as manifestações da natureza — desde os movimentos celestes e as estações até o surgimento da vida e a morte nas comunidades humanas.
Essas narrativas eram transmitidas oralmente, de geração em geração. Com o surgimento da escrita, alguns desses mitos passaram a ser registrados. Entre eles, destaca-se a Epopeia de Gilgamesh, considerada o registro mais antigo e famoso, cuja composição teve início por volta de 2100 a.C., entre os Sumérios.
A Descida de Inanna ao Submundo nos convida a refletir, de forma simbólica, sobre as renúncias e conquistas que acompanham nossa jornada em busca de um propósito, como a necessidade de desapego da matéria (bens, cargos, títulos) para alcançar paz de espírito, felicidade e maior vínculo com aqueles que amamos.
2: Quem foram os Sumérios
Os Sumérios foram um povo da Mesopotâmia que floresceu na região do Crescente Fértil aproximadamente entre 4000 e 2000 a.C. A eles é atribuído o surgimento da escrita mais antiga conhecida, a escrita cuneiforme, inicialmente utilizada para registros administrativos e econômicos, mas posteriormente aplicada também a textos religiosos e literários.
A decifração da escrita cuneiforme ocorreu no século XIX, principalmente graças às inscrições multilíngues e à comparação com outras línguas mesopotâmicas, como o acadiano.
Além de suas contribuições culturais, os sumérios destacaram-se pela engenharia hídrica, desenvolvendo sistemas de irrigação por meio da construção de canais, diques e reservatórios, fundamentais para a agricultura na região dos rios Tigre e Eufrates.
3: Por que este mito é tão fascinante?

Dentre as narrativas míticas de diferentes culturas, a descida de Inanna ao submundo é um motivo recorrente. Em muitas tradições, ela ocorre como punição, imposição do destino ou como parte de uma missão de resgate. Mesmo em jornadas motivadas pela busca de conhecimento — como na viagem de Dante Alighieri — o deslocamento ao mundo inferior assume caráter de necessidade ou orientação externa.
Inanna, porém, desce porque quer. Sua jornada não é fruto de erro, castigo ou dever. É um movimento deliberado, um gesto de vontade. E é justamente o enigma dessa decisão — compreender por que uma Deusa escolheria atravessar os domínios da morte — que torna o mito singularmente fascinante.
4: Características Divinas de Inanna
Considerada uma das Deusas mais complexas e influentes do panteão mesopotâmico, Inanna era a principal Deusa da fertilidade, do amor, do sexo, da guerra e da justiça política, Deusa padroeira do Templo Eana na cidade de Úruk. Associada ao leão e à estrela de 8 pontas, símbolo do Planeta Vênus, seu culto incluía Rituais de Casamento para garantir a fertilidade da terra.
Filha de Nanna e Ningal, Deuses da Lua, Inana era conhecida como a Rainha do Céu, e sua irmã, Ereshkigal, a Rainha do Submundo. O submundo, chamado de Kur – A Terra do Não Retorno – é a região para onde as almas vão após a morte, um local com hierarquia e estrutura próprias. Ereshkigal como regente absoluta, é temida até pelos Deuses, sendo a responsável por controlar a vida e a morte e por garantir que ninguém que tenha entrado no submundo, possa retornar. Uma curiosidade, Inanna é a primeira divindade com registros escritos conhecidos.
5: O Mito

Inanna decide descer ao submundo para assistir ao rito funerário de Gugalanna, esposo de sua irmã Ereshkigal — ao menos essa é a justificativa que apresenta ao porteiro de Kur. Kur era uma caverna profunda, subterrânea, onde a vida era percebida como uma sombra da existência na Terra. Como a narrativa não desenvolve o funeral de Gugalanna como elemento central, muitos intérpretes entendem essa explicação como um pretexto, sugerindo motivações mais profundas para a jornada da Deusa. Entre as leituras possíveis, destaca-se a interpretação segundo a qual a descida representaria um movimento de iniciação ou de busca por um tipo de poder ainda não experimentado.
Em perspectivas simbólicas modernas, o submundo pode ser compreendido como uma metáfora das regiões obscuras da existência, frequentemente associadas ao inconsciente, aos medos e às dimensões ocultas do ser. Descer ao Kur, nesse sentido, adquire significado de confronto com aquilo que está além da ordem visível, aproximando-se de uma jornada de transformação.
Antes de partir, Inanna instrui sua serva Ninshubur a buscar auxílio junto às divindades Enlil, Nanna, Anu e Enki caso não retornasse após três dias. A antecipação do perigo revela que a Deusa não age por engano ou impulso, mas com plena consciência dos riscos envolvidos.
O período de três dias também tem seu simbolismo. O três, em muitas tradições simbólicas, está associado a ciclos e processos de transformação. Embora Inanna fosse uma Deusa de elevado poder, não estaria livre do julgamento de sua irmã, soberana do submundo, aquela que rege a vida e a morte.
Consciente de que seu retorno não é garantido, e reconhecendo o poder de Ereshkigal, Inanna veste-se de forma muito solene para sua visita, revestindo-se de insígnias de poder: (i) o turbante, (ii) o colar de lápis-lazúli, (iii) as contas em seu seio, (iv) o vestido de pala, (v) o rímel, (vi) o peitoral, (vii) o anel de ouro, e segura (viii) um bastão de lápis-lazúli. A ornamentação não é mero adereço, mas demonstra sua condição divina e seus status ante às divindades.

Assim adornada, Inanna inicia sua descida ao Kur, sustentada por seus símbolos de poder e pela firmeza de sua vontade.
“Abra, porteiro, abra. Abra, Neti , abra. Estou sozinha e quero entrar”.
Após o porteiro obter consentimento junto a Ereshkigal, seguiu suas instruções e trancou todos os portões, abrindo um a um, após retirar os poderes de Inanna um a um.
Para passar pelo primeiro portão, o turbante, adorno de cabeça para o campo aberto, foi retirado de sua cabeça.
“O que é isso?” “Fique satisfeita, Inanna , um poder divino do submundo foi cumprido. Inanna, você não deve abrir a boca contra os ritos do submundo.”
Quando ela entrou pelo segundo portão, as pequenas contas de lápis-lazúli foram retiradas de seu pescoço.
Quando ela entrou pelo terceiro portão, as duas contas em forma de ovo foram retiradas de seu peito.
Quando ela entrou pelo quarto portão, o peitoral com a inscrição “Vem, homem, vem” foi removido de seu peito.
Quando ela entrou pelo quinto portão, o anel de ouro foi retirado de sua mão.
Quando ela entrou pelo sexto portão, a vara de medir de lápis-lazúli e a linha de medir foram retiradas de sua mão.
Quando ela entrou pelo sétimo portão, o pala, a vestimenta da dama, foi removido de seu corpo.
Ao final suas roupas foram removidas e levadas embora. Ela fez com que sua irmã Ereshkigel se levantasse de seu trono e sentou-se em seu lugar. Os sete juízes olharam, falaram e gritaram com ela, e ela foi julgada e transformada em um cadáver, e pendurada em um gancho.
Após três dias e três noites sem retornar do submundo, Ninshubur, fiel à ordem recebida, clama por ajuda junto aos deuses.
O primeiro a ser consultado é Enlil, que se recusa a intervir. Ele afirma que Inana desejou tanto o céu quanto o submundo, e que este não é um reino a ser almejado, pois aquele que nele entra deve ali permanecer.
Em seguida, Nanna também nega ajuda.
Por fim, Enki decide intervir. Ele cria seres e os envia ao submundo levando o alimento e a água da vida, possibilitando o retorno de Inana.
Entretanto, Ereshkigal impõe uma condição: para que Inana deixe o submundo, alguém deve ocupar o seu lugar.
Inanna escolhe Dumuzid, seu esposo, para que tome seu lugar no submundo. Mas, por que?
Enquanto Inanna estava morta no submundo, despida de seus poderes e pendurada em um gancho, Dumuzi vestiu roupas luxuosas, sentou-se no trono dela e agiu como se nada tivesse acontecido, aproveitando o poder da Deusa.
Ele não seguiu as instruções de lamentar sua ausência: não se vestiu com trajes de luto, não espalhou cinzas sobre si e tampouco chorou sua morte nos templos dos deuses, como deveria ter feito até o seu retorno de Kur.
A irmã de Dumuzid, Geshtinanna, Deusa da agricultura, fertilidade e interpretação de sonhos, demonstrou ser fiel a seu irmão, decidindo dividir seu destino: passando metade do ano em seu lugar no submundo, permitindo assim que Dumuzid retorne à superfície. O período em que Geshtinanna estava no submundo era interpretado pelos Sumérios como período das secas (inverno).

6: Conclusão
O mito da Descida de Inana ao Submundo simboliza o ciclo da vida, da morte e do renascimento, além de refletir a alternância das estações. Mais do que isso, expressa a busca humana por transformação interior, por meio do mergulho no próprio inconsciente, um processo no qual nos despimos de máscaras e aparências, confrontando quem realmente somos.
Nenhuma mudança é possível sem alcançar o cerne da questão. Para nos conhecermos profundamente, é necessário, como Inana, descer às profundezas, abandonar os artifícios e permitir-se simplesmente ser. E mesmo em uma jornada individual, precisamos de ajuda para retornar.