Vox Hominis
A voz da verdade
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Processo de Surgimento de um Rei, de um Reino e da Monarquia

1: Localização na História

Antes de adentrar de fato no assunto de nosso artigo devemos olhar para trás e buscar na história alguns elementos necessários para entender o processo de formação de um Rei. A sequência desse estudo é apresentar como surge um Rei, a partir disso vamos entender como surge a monarquia, por último, como surge o Reino.

Em vistas ao Paleolítico, temos o primeiro período da Pré-história que é datado de 2 milhões a.C. até 10.000 a.C. Nesse momento os homens tinham sua alimentação baseada em caça e pesca. A agricultura ainda não era conhecida por esses homens e suas ferramentas eram baseadas em pedra lascada. A sociedade era igualitária, onde não havia chefes ou comandantes. Todos ajudavam a todos no grupo.

Os seres humanos se alimentavam de vegetais, frutos, sementes e outros alimentos disponíveis no ambiente. Isso fazia que com a falta desse alimento os fizessem procurar outra área com mais abundância. Essa movimentação não se dava somente por isso, mas por questões de falta de caça e ameaças à sua segurança. Logo, os seres humanos desse período eram nômades, ou seja, não tinham um local fixo para viver, estavam sempre se locomovendo em busca de melhores oportunidades.

Em sucessão a esse período temos o Neolítico, que é datado de 10.000 a.C. até 5.000 a.C. Aqui os seres humanos descobrem a agricultura, o que segundo a historiografia se deu de 8.000 a.C. a 5.000 a.C.; com uma indicação geral de 7.000 a.C.

Isso é crucial, porque o ser humano passa a cultivar a terra e para isso há que ter fonte de água. Logo, o ser humano deixa de ser nômade e passa a ser séssil, ou seja, passa a se fixar a um determinado local. Como consequência disso as construções para moradia passam a ter uma preocupação de serem mais permanentes. Surgem, assim, as primeiras aldeias.

No início desse período agrário da humanidade, durante o Neolítico, os homens caçavam, praticavam o pastoreio e cuidavam da segurança local contra ameaças humanas ou de animais. As mulheres preparavam os alimentos, cuidavam das crianças e cultivavam a terra. Nesse momento inicial a sociedade era ainda igualitária.

Entretanto, ocorre que alguns homens e algumas mulheres, por questões de maior força, maior empenho ou maior inteligência, fatores estes isolados ou combinados, passaram a acumular alimentos. Quando se diz acumular, estamos nos referindo a excessos.

Esse excesso é parte da explicação de como homens comuns passam a ser reis, o que será estudado na próxima seção.

2: O Processo de Surgimento do Primeiro Rei

Lembra do excesso que acabamos de falar? Pois então… ele é um dos quatro fatores que transformavam homens comuns em líderes. Esses quatro fatores serão apontados e
comentados, são eles:

2.1: A Benevolência

Aqui entra o excesso que falamos. No neolítico quando havia escassez de alimentos aquele que ofertava seus alimentos aos demais, na forma de um banquete, os que eram convidados tinham uma dívida social com seu benfeitor. Assim, quando todos tinham voz igual para apresentar soluções, o benfeitor, que era visto com destaque pela sua benevolência, tinha voz de destaque e era ouvido com maior atenção. Esse era um mecanismo de transformação onde um homem dentre os iguais passa a ter destaque em seu grupo.

É desse excesso de alguns onde a necessidade da agricultura para todos diminui e surgem oportunidades para outros trabalhos, o que faz o aparecimento dos artesãos, construtores de casas e outras habilidades e ofícios. Aqui surge a diferenciação do trabalho e o surgimento de classes sociais.

O benevolente era considerado sábio; portanto era chamado para dar conselhos e servir de juiz diante de conflitos entre indivíduos. Sua voz era vista como a de um sábio, porque a benevolência era tratada como algo superior, semelhante a um Deus. Exemplos: Yao e Shun, da Antiga China e Dom Pedro II. Todos eles são considerados benevolentes e patriarcais.

2.2: A Coragem

As ameaças à vida no período neolítico eram severas. De um lado grupos externos por busca de mais terras para o plantio, uma vez que o fato de os humanos se tornarem sedentários aliado ao domínio das técnicas de agricultura aumentou a população. Logo, a busca por terras para maior plantio para alimentar as populações que cresciam cada vez mais, bem como a busca por melhores condições fazia com que a terra local fosse um alvo constante.

Ademais, as investidas por animais era também algo comum e recorrente. Nesta feita, aquele que apresentasse coragem ou mesmo uma estratégia acertada, para combater essas adversidades e conseguir preservar seu grupo de perigos e ameaças, era sempre procurado para dar a primeira voz dentro de uma sociedade igualitária.

Sua voz era procurada para questões de segurança e de estratégia. Também para conselhos aos demais e agir como mediador em conflitos. Um exemplo de um rei que ascendeu pela coragem é Gengis Khan, rei dos mongóis. Outro conhecido caso é o rei David para os hebreus.

2.3: A Inteligência

A inteligência distinta de um membro segue a mesma lógica do fator coragem. Aquele que conseguia dar soluções às dificuldades da época ganhava distinção do grupo em um momento onde a sociedade era igualitária. Muitas vezes a estratégia de guerra estava associada a essa inteligência. Outras vezes à criação de utensílios para facilitar a sobrevivência do grupo ou mesmo protegê-lo de ameaças.

Por essa inteligência esse indivíduo ganhava distinção do grupo. Por isso era procurado como conselheiro e também como mediador em intrigas e conflitos entre os membros da tribo. Bons exemplos de líderes, que souberam fazer bom uso de estratégias são Mahatma Gandhi e Sun Tzu.

2.4: O Invisível

Por fim, aquele que tivesse a capacidade de se comunicar com o invisível era tido como alguém em destaque. Imagine um momento onde a agricultura era algo imprevisível diante das mudanças das condições da natureza. Aquele que conseguisse intervir ante aos Deuses e garantir boa colheita, detinha apreço e a confiança de todos do grupo.

Nessa toada um Sacerdote, por assim dizer, se tornava um guia para seu grupo e ameaçá-lo era o mesmo que desdizer aos Deuses. Esse homem era procurado para dar conselhos, dirimir conflitos e sugerir os caminhos do povo. Um exemplo de quem se tornou rei devido à religião foi Moisés e Maomé, que lideraram seus povos, mas não foram reis.

2.5: O Líder Tribal

O mecanismo que descrevemos parte da seguinte transformação: Um homem comum, em uma sociedade igualitária, ganha destaque frente aos olhos dos demais e essa população, de forma natural, o tem como alguém especial. Isso confere a ele prestígio, o que lhe permite o caminho para se tornar um LÍDER TRIBAL.

O fator benevolência operava pelo excesso, onde quem tivesse mais posses que os demais detinha mais poder. Isso era relevante (ainda o é) em um momento onde sobreviver era uma relação de segurança e ter alimentos. Logo, o excesso e a ação da benevolência, transformava o homem comum em um Líder Tribal.

E por falar em segurança, essa era a motivação para o fator coragem. Garantir a integridade física do grupo era de suma importância para o período. Por extensão o fator inteligência segue a mesma lógica do fator coragem, ainda que a motivação seja distinta o alicerce é o mesmo: segurança e manutenção do grupo. Acresce-se a ele as facilidades obtidas para proporcionar melhor vida aos membros do grupo. Assim, a coragem e a inteligência transformavam o homem comum em Líder Tribal.

Quanto aos Sacerdotes, suas façanhas espirituais lhe conferiam a dita de guiar o povo porque ele tinha comunicação direta com os Deuses. Dessa forma, ele se transformava de um homem comum em um Líder Tribal.

Um Líder Tribal, independentemente do fator que lhe desse tal prestígio, acumulava bens. Parte pelo prestígio, parte por suas habilidades que lhes rendiam ofertas. Isso, naturalmente, o tornava mais rico e mais poderoso. Esse ciclo garantia a ele um poder cada vez maior.

E nesse momento, um Líder Tribal passa a ditar as regras para um dado povo e dada região de domínio e nesse momento temos o surgimento de um Rei. Importante destacar que os primeiros reis, do período neolítico, surgiram por méritos próprios, por prestígio pessoal, um esboço da atual meritocracia. Os demais reis vieram por hereditariedade, assim como os reis de hoje.

3: O Surgimento do Reino

A historiografia afirma, em sua maioria, que o reino existe a partir do momento em que haja um rei. Entretanto, a Vox Hominis tem uma segunda versão, compartilhada por uma minoria de estudiosos, mas que ao seu ver faz mais sentido. Segue!

Um reino existe quando um rei consegue transmitir, de forma hereditária, seu poder. Assim, quando seu filho herda o poder de seu pai e o povo o aceita como novo rei, nesse momento existe um reino.

Mas por que disso?

A resposta é simples! Caso um rei não consiga transferir seu poder ao seu filho, significa que o poder desse rei foi local e temporário, não teve continuidade. Não tendo continuidade, então o sistema monárquico não se manteve, logo, sem monarquia, não há reino.

Portanto; a questão reside na continuidade do poder. Se ele consegue ser transferido de forma hereditária, então existe um sistema monárquico, logo, existe um rei. Se existe rei e monarquia, então, existe um reino.

A ausência de transferência do poder de forma hereditária, denota um poder central único, forte em um momento, mas sem continuidade em outro. Sem continuidade, sem reino.

4: O Surgimento da Monarquia

Essa existe quando existe um monarca, ou seja, um rei. Quando deixa de existir um rei, deixa de existir a monarquia. Logo, a monarquia surge quando um povo elege ou aceita um rei.

É fácil entender que a ausência de um rei representa o fim da monarquia. Logo, a monarquia surgiu no neolítico. O sistema foi se aperfeiçoando, mas sua origem remonta à pré-história.

5: Provas Arqueológicas da Existência de Reis no Neolítico

Existem provas arqueológicas que demonstram a presença de reis já no período neolítico. Um exemplo bastante difundido é a Necrópole de Varna (atual Bulgária – 4500 a.C.). Muito antes das pirâmides do antigo Egito ou dos palácios da Suméria, arqueólogos encontraram sepulturas do Neolítico Tardio.

O túmulo de um único homem, conhecido como Túmulo 43, continha mais ouro do que todo o resto do mundo combinado para aquela época, além de um cetro de comando. Alguns estudiosos creem que ele governava como um rei, embora não houvesse escrita para registrar seu título.

Outro exemplo vem da cultura Vinča, do Leste Europeu e da cultura Göbekli Tepe, atual Turquia. Segundo a historiografia, elas mostram centros urbanos e de Rituais massivos que exigiam uma liderança centralizada fortíssima para coordenar milhares de trabalhadores antes da Suméria existir. Alguns estudiosos, sem consenso, afirmam que a liderança era exercida por um rei.

6: Um contraponto da Antropologia

Tradicionalmente, a antropologia considera que os primeiros reis eram da Suméria e do Egito. Afirma ainda que o primeiro rei foi Enmebaragesi.

Enmebaragesi foi rei da Cidade-estado da antiga Suméria de Quis por volta de 2600 a.C. Quis foi a primeira cidade da Suméria a exercer a liderança e a realeza sobre toda a Suméria após o mítico Dilúvio que inundou a região.

O prestígio da cidade era tanto que o título de “Rei de Quis” virou sinônimo de “Rei da Suméria”. Mesmo quando outras cidades, como Uruk ou Ur, derrotavam Quis na guerra, seus reis adotavam esse título para legitimar que agora governavam todo o território sumério.

7: A Lista de Reis Sumérios

Existe uma famosa lista suméria que discorre acerca dos reis sumérios. A lista é dividida em duas partes. A primeira traz os reis antes do dilúvio e a segunda os reis após o dilúvio. Não existem maiores explicações sobre o dilúvio, apenas que foi um dilúvio na região.

A lista começa com o primeiro rei da história, conforme os sumérios. Esse rei foi Alulim, o qual governou, conforme relato, por 28.800 (vinte e oito mil e oitocentos) anos. Além deste, a lista cita mais 7 reis antediluvianos. Destaca-se, para clareza do leitor, que o documento afirma da existência de uma grande inundação, um dilúvio na região.

Após esses 8 reis, aparecem reis que a antropologia pode comprovar. O primeiro deles é Gusur. Enmebaragesi, o primeiro rei pós diluviano que pode ser comprovado pela antropologia, aparece na posição 22, na lista corrida, a posição 30.

A lista conta com 8 reis antes do dilúvio e 134 reis após o dilúvio. Isso dá um total de 142 reis sumérios.

8: Mas então quem foi, na verdade, o primeiro Rei da História?

A resposta é simples: Depende!

Se considerarmos a lista completa dos Sumérios, o primeiro rei foi Alulim. Se considerarmos a lista como apenas os reis após o dilúvio, temos Gusur.

Se a ideia é considerar fatos comprovados, temos duas possibilidades, considerar Enmebaragesi, o rei sumério de Quis ou considerar os reis do período Neolítico.

Aqui cabe uma análise. Em termos do processo de formação de um rei, o período Neolítico nos dá a resposta que procuramos. Isso porque os Líderes Tribais se tornaram, por evocação popular, reis.

Se queremos a indicação de uma personalidade histórica comprovada, temos Enmebaragesi, o primeiro rei comprovadamente verificado pela antropologia. Se considerarmos a tradição histórica, temos a pessoa do rei Alulim. Gusur fica no meio termo entre a não comprovação e o pós dilúvio sendo, das opções, o menos considerado diante da força argumentativa dos demais.