Vox Hominis
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Ética para Santo Agostinho

1: Apresentação

Santo Agostinho, nascido como Aurelius Augustinus ou, em português, Aurélio Agostinho, nasceu em 13 de novembro de 354 na cidade de Tagaste, o que hoje corresponde à cidade de Souk Ahras, localizada na Argélia, no norte da África.

Era filho de Santa Mônica e Patrício, um homem pagão que se converteu ao cristianismo ao fim de sua vida. É conhecido como Agostinho de Hipona, por ter sido bispo desta cidade, hoje correspondendo à cidade de Annaba, localizada no litoral da Argélia.

Foi nesta cidade que Santo Agostinho morreu, aos 76 anos em 430. Sua morte se deu durante a invasão e cerco dos vândalos (povo germânico) que cercaram a cidade de Hipona.

Pintura de Santo Agostinho, Philippe de Champaigne, 1650 – Los Angeles County Museum of Art

Suas obras impactaram profundamente o pensamento da Europa medieval. Abordou temas como o livre-arbítrio e a busca pela própria consciência e a necessidade da reflexão e da vida interior.

Escreveu obras até hoje estudadas na Academia sendo parte integrante nos cursos de graduação que estudam Ética.

2: Visão geral sobre o trabalho de Santo Agostinho

Santo Agostinho foi um dos primeiros a dar base filosófica aos dogmas do catolicismo. É considerado o maior expoente da Filosofia Patrística. São Tomás de Aquino, por sua vez, outro grande pensador cristão, é considerado o maior expoente da Filosofia Escolástica. Para ler sobre elas, clique ao lado. ACESSAR

Santo Agostinho e a Filosofia Patrística usavam as obras de Platão e dos Neoplatônicos para dialogar com a fé cristã, dar a esta, as bases e fundamentos. Ele foi um dos principais responsáveis em dar um corpo sólido à base doutrinal e teológica da Igreja católica. O catolicismo existia como religião, mas não havia bases para fundamentar aspectos institucionais. Nesse sentido surge os estudos de Santo Agostinho.

Ele teve uma formação bastante sólida e multidisciplinar. Em Tagaste, sua cidade natal, entre 361 e 367, estudou leitura, escrita e gramática, iniciando sua formação nas disciplinas fundamentais da educação romana. Entre 367 e 370, em Madaura, cidade vizinha de Tagaste aprofundou seus estudos em gramática, literatura latina e linguagem, entrando em contato com os autores clássicos.

Agora, em Cartago nos anos de 371 a 374, Santo Agostinho estudou retórica, mas sua formação também abrangia dialética, matemática, geometria e música, além do contato crescente com a filosofia. Foi nesse período que a leitura de Cícero despertou nele uma busca mais profunda pela verdade e pela filosofia. O contato com Cícero foi fundamental para a obra e pensamento do filósofo da escola Patrística.

Em 383 se mudou para Roma, onde ficou por um ano. Lá deu continuidade à sua carreira e aperfeiçoamento em retórica, mantendo sua investigação filosófica. Por fim, em Milão, entre 384 e 386 aprofundou a filosofia, especialmente o neoplatonismo, e passou a desenvolver de maneira decisiva suas reflexões sobre razão, verdade, alma, vontade, conhecimento, ética e Deus.

Teve influência também de obras do Maniqueísmo, uma escola com fortes raízes no Gnosticismo. Na verdade, Santo Agostinho não apenas recebeu influência do maniqueísmo; ele foi maniqueísta durante aproximadamente nove anos.

O estudo de matemática não foi um estudo isolado, como disciplina, mas como algo técnico. Para ele, o número, a ordem e razão tinham uma função filosófica. Para ele, a aritmética, geometria, música e astronomia podiam conduzir a uma compreensão da ordem racional do mundo. Isso foi visto em suas obras. Isso é particularmente relevante para a sua série “Códigos e os Filósofos da Tradição Ocidental”, porque mostra que, para Santo Agostinho, ética não pode ser separada de razão, conhecimento, ordem e formação intelectual.

Quanto aos autores estudados, podemos dividir em dois grupos. O grupo que foi estudado em sua formação acadêmica, o que inclui Virgílio com estudo de sua poesia, em especial, a Eneida. Foi o autor literário mais importante de sua formação. De Cícero estudou retórica, filosofia e prosa latina. Foi muito importante para ele. Foi decisivo para Santo Agostinho; a leitura de Hortênsio cuja obra despertou o interesse filosófico. Terêncio, tendo estudado dramaturgia e literatura latina. Com Salústio estudou historiografia e prosa latina.

Com relação aos autores que influenciaram seu pensamento, temos Platão com importante participação para seu pensamento filosófico. Plotino trouxe para ele o neoplatonismo, assim como Porfírio. Varro teve sua importância quanto aos estudos com religião e cultura romana. Apuleio, por sua vez, que era um escritor norte-africano de língua latina, deu base para reflexões posteriores de Santo Agostinho.

Suas principais obras: Da Vida Feliz, Sobre o Livre-Arbítrio, Solilóquios, Confissões, A Cidade de Deus, A Trindade.

3: Ética para Santo Agostinho

Santo Agostinho desenvolveu seu trabalho sobre Ética com base:

(i) Na busca pela Verdade,
(ii) Na interioridade humana e
(iii) Na ordenação da vontade para o Bem.

Em termos conceituais, Santo Agostinho propôs uma Ética fundamentada no conhecimento do Ser Humano sobre si mesmo, algo que evoca a própria Doutrina Gnóstica do Maniqueísmo. Como expansão disso, a Verdade e seu reconhecimento no sentido de orientar a Vontade humana em direção ao que é bom.

Para Santo Agostinho o mal é uma privação do bem (privatio boni). Ele via na ausência do bem, a existência (momentânea) do mal. Para ele a busca pela verdade não começa pelo mundo exterior, é necessário voltar-se para dentro de si. Na sua visão, deve-se buscar a verdade no interior do homem, o que se revela no seu conceito de interioridade.

O fato de buscar a Verdade não é o fim da jornada. O que ocorre é que ao chegar a ela, o indivíduo reconhece sua própria condição, se deparando com sua natureza de desejos e suas limitações. É nesse ponto em que se vai ao encontro de uma verdade superior e imutável, algo que é e está além de si próprio.

Na sua visão, a Ética não é apenas reconhecer o Bem, vai mais além. Uma vez que se o reconheça, devemos aplicar a Vontade em direção a esse Bem. A Vontade tem relação direta com o comportamento humano. Pode acontecer que uma pessoa reconheça o Bem, mas lhe falte Vontade para ir em sua direção. Vontade essa que pode faltar por medo, coação ou por questões de interesse pessoal.

Nesse sentido, que surge a ideia de LIVRE-ARBÍTRIO. Somos seres que temos possibilidade de escolhas. Isso nos faz responsáveis por nossas ações e decisões. A Liberdade não deve ser vista como libertinagem. Ou seja, ter Liberdade não representa fazer tudo o que se queira. Para Santo Agostinho a verdadeira expressão da Liberdade é utilizá-la para, que por meio da Vontade, saibamos nos direcionar em favor do Bem.

Por isso Santo Agostinho questiona: De que serve ao ser humano conhecer o Bem se sua Vontade permanece desordenada e seus desejos conduzem suas ações para outra direção?

Logo, na visão Agostiniana, há uma diferença entre conhecer (intelectualmente) o que é correto e ter Vontade em se orientar nesse sentido. Para aplicar a Vontade, Santo Agostinho nos faz refletir sobre que valor damos às coisas. Em outras palavras, o que amamos ou o que mais amamos?

Amamos mais os bens materiais ou amamos mais o Bem? Aquilo que mais amamos é o que iremos exercer a Vontade em primeira escala. Se mais amamos os bens materiais que ao Bem, então, vamos priorizar aqueles em detrimento do segundo. Logo, nossa Vontade estará a serviço, primeiro dos bens materiais e, em segundo plano, do Bem.

Assim, a Ética Agostiniana está, relacionada ao AMOR. A questão é o que se ama e a ordem em que as coisas são amadas, e não amar ou não amar. Isso nos conduz ao que se chama de ORDO AMORIS – A Ordem dos Amores.

Na sua concepção, uma Vida ética requer que tenhamos uma lista ordenada das coisas que amamos. Amar coisas inferiores como se fossem superiores, causa desordem em nossa vida e dos demais. Já, se sabemos amar cada coisa de forma correspondente, de acordo ao seu verdadeiro valor, isso produz ordem.

Em termos conceituais, podemos apresentar a Ética Agostiniana em 5 dimensões.

PRIMEIRA DMENSÃO: INTERIORIDADE
O primeiro passo é saber olhar para dentro de si mesmo. Esse movimento objetiva examinar a própria consciência de forma a poder reconhecer as próprias motivações internas (psicológicas). Uma vez que se as reconhece, devemos compreender como isso orienta nossas próprias escolhas. Na visão de Santo Agostinho, não há transformação exterior sem que antes haja uma transformação anterior da própria Vontade.

SEGUNDA DIMENSÃO: VERDADE
Ninguém deve fundamentar a vida em opiniões ou desejos, Não se deve viver por conveniências. A guia de uma vida não deve estar com vistas àquilo que é momentâneo. A vida deve buscar o que é verdadeiro, porque a Verdade não é efêmera e ela está acima de qualquer preferência pessoal. Só a Verdade nos permite ser pessoas reais.

TERCEIRA DIMENSÃO: VONTADE
Conhecer é uma etapa, mas não basta saber se nossas escolhas não vão em direção ao Bem. Devemos saber desejar o Bem. Na visão de Santo Agostinho a Vontade deve ser educada para que o indivíduo ao reconhecer o que é racionalmente correto, possa direcionar suas ações nesse sentido.

QUARTA DIMENSÃO: AMOR ORDENADO
Para cumprir com o anterior devemos saber ordenar o nossos amores. Só com uma adequada ordenação de nossos amores que nossa vida terá a devida ordem.

QUINTA DIMENSÃO: RESPONSABILIDADE
Temos possibilidade de escolha e decisão. Isso nos faz responsáveis por nossas próprias ações, sendo cada qual responsável por elas, às quais devemos arcar com suas consequências.

Podemos ainda citar uma Sexta Dimensão que corresponde à Dimensão Coletiva. Isso porque não vivemos de forma isolada, e nossas ações, de uma forma ou outra, atinge e repercute no outro. Entretanto, por outro lado, como temos a possibilidade do livre-arbítrio, não devemos atribuir responsabilidade, exclusivamente, aos eventos externos. É certo que há circunstâncias que condicionam o indivíduo, mas temos responsabilidade sobre nossas próprias escolhas.

Na visão de Santo Agostinho podemos estender toda essa reflexão à sociedade. No lugar de ver os amores do indivíduo podemos ver os amores que nossa sociedade tem. Aqui Santo Agostinho adentra no terreno da sociedade e da política.

Assim, seu estudo sobre Ética é, ao mesmo tempo para o indivíduo como para a sociedade. A compreensão trazia pela sua Ética pode ser bastante ampliada, nesse sentido. Na sua visão, uma sociedade que coloca o poder, a riqueza, as aparências e a dominação como elementos primeiros do amor essa sociedade está desordenada e doente.

Logo, a verdadeira questão Ética para uma sociedade não está apenas em saber como ela funciona, mas sim, qual a verdadeira finalidade que a orienta; o que essa sociedade busca.

Em síntese, temos:

INTERIORIDADE

VERDADE (Conhecimento)

VONTADE (Liberdade)

AMOR (Ordenação dos Amores)

RESPONSABILIDADE (Vida Individual e Sociedade)

4: Conclusão

Para Santo Agostinho a Ética se fundamenta na busca pela Verdade, no conhecimento de si, na liberdade da vontade, na responsabilidade pelas escolhas e na ordenação do amor para o Bem. O indivíduo Ético é aquele que não apenas conhece aquilo que é correto, mas procura ordenar sua vontade e suas ações de acordo com aquilo que reconhece como verdadeiro e bom.

Ele ainda faz uma análise da sociedade afirmando que os amores dela predizem como uma sociedade se comporta. O ordenamento da sociedade é diretamente relacionada ao ordenamento de seus amores. Ou seja, aquilo que uma sociedade ama revela aquilo que ela considera digno de ser buscado.