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Ética para São Tomás de Aquino

1: Apresentação

Nascido como Tommaso d’Aquino, em português, Tomás de Aquino entre 1224 e 1225, sem data precisa conhecida no Castelo de Roccasecca, na Roccasecca, na província de Lácio, na época, Reino da Sicília, atualmente Itália. Morreu na Abadia de Fossanova, no município de Priverno, província de Lácio. Seu falecimento se deu quando estava a caminho do Segundo Concílio de Lyon.

Seu nome era Tomás e pertencia à uma nobre família de condes, chamada de Aquino, daí seu sobrenome. Na verdade não era um sobrenome no sentido que hoje conhecemos, isso porque o nome era acrescido da região ou noma da família a qual pertencia.

São Tomás de Aquino pertencia a uma família de posses e prestígio. Seu pai foi Landolfo, o conde de Aquino e sua mãe a condessa Teodora de Theate. Landolfo tinha grande poder militar e fortes relações com o Sacro Império Romano-Germânico.

Ao nascer, os pais tinham por intenção que São Tomás de Aquino seguisse a vida eclesiástica e se tornasse abade de Montecassino. Isso manteria o dinheiro nas mãos da família, bem como o poder político e a garantia do controle territorial da região.

Tomás de Aquino (por volta de 1400) por Gentile da Fabriano

Para isso, os pais enviaram São Tomás de Aquino para a Abadia de Montecassino quando tinha apenas 5 anos. A Abadia de Montecassino era coordenada por monges Beneditinos. Entretanto, aos 14 anos foi para Nápoles em decorrência de conflitos militares na região de Montecassino.

Lá, na Universidade de Nápoles, ele teve dois encontros que impactaram sua vida: Teve contato com a obra de Aristóteles e conheceu os frades Dominicanos.

Após ingressar na Ordem dos Dominicanos, São Tomás de Aquino foi enviado para continuar sua formação intelectual. Em Paris, entrou em contato com um dos mais importantes centros intelectuais da Europa medieval. Posteriormente, foi enviado a Colônia (hoje uma cidade da Alemanha, na época, uma importante cidade do Sacro Império Romano-Germânico), onde estudou sob orientação de Alberto Magno, filósofo, teólogo e também dominicano.

Alberto Magno teve papel fundamental na formação de Tomás de Aquino. Seu trabalho procurava estudar e integrar o conhecimento produzido pela filosofia grega, especialmente a obra de Aristóteles, ao pensamento cristão. Foi nesse ambiente que Tomás aprofundou seu contato com a filosofia aristotélica e desenvolveu instrumentos filosóficos que posteriormente utilizaria na construção de sua própria obra.

A relação entre mestre e discípulo foi especialmente importante porque Alberto Magno não tratava o conhecimento filosófico como necessariamente contrário à fé. Ao contrário, procurava compreender como a investigação racional da natureza, do ser humano e do mundo poderia contribuir para a compreensão da realidade.

Em Colônia, Tomás aprofundou seus estudos de filosofia, teologia, lógica e metafísica. Essa formação seria decisiva para aquilo que posteriormente se tornaria uma das características fundamentais de seu pensamento: a tentativa de estabelecer uma relação sistemática entre fé e razão, sem reduzir uma à outra.

Depois desse período de formação, Tomás retornou a Paris, onde prosseguiu seus estudos e iniciou sua própria trajetória como professor e escritor. A Universidade de Paris seria posteriormente um dos principais ambientes de sua atividade intelectual.

Ocorre que São Tomás de Aquino aderiu à Ordem dos Dominicanos. Essa Ordem, oficialmente Ordem dos Pregadores, pregava a mendicância em seu apostolado, bem como voto de pobreza. Isso resultava que São Tomás de Aquino abria mão de propriedades e heranças para pregar e viver da caridade alheia.

Isso ia na contramão dos planos da família. A ideia inicial dos pais se desfizeram a partir dessa escolha de São Tomás de Aquino. Neste caso, ao se tornar Dominicano, ele rejeitava os planos políticos do pai, o título de conde e os altos cargos na Igreja que trariam riquezas para a família dos Aquino. Isso não era apenas uma renúncia, mas uma mudança total na finalidade da sua vida.

A família, da sua parte, buscou retroceder a situação. Os irmãos de São Tomás de Aquino o sequestraram, quando estava a caminho de Paris e a família o manteve em cativeiro por um ano, aproximadamente, no castelo de Roccasecca. Como tentativa de abalar sua fé, segundo a tradição da sua biografia, foi enviada uma prostituta aos seus aposentos, com a intenção de seduzi-lo. Entretanto, ele se manteve firme em sua castidade e, com uma barra de aço incandescente vinda da lareira, desenhou uma cruz na parede.

Sem ter o que fazer sua mãe facilita sua fuga, conforme afirma sua tradição biográfica. Livre, São Tomás de Aquino volta aos Dominicanos para se tornar um dos principais pensadores filósofos-teológicos que se conhece, em particular, da Escola Escolástica. Para ler sobre Escolástica, clique ao lado. ACESSAR

Pintura: A tentação de São Tomás, 1632 – Velásquez

* Ao fundo vemos uma prostituta. Em primeiro plano, dois Anjos e São Tomás de Aquino sendo consoldado.

2: Visão geral sobre o trabalho de São Tomás de Aquino

Talvez a maior contribuição de São Tomás de Aquino é seu trabalho para conciliar e razão de forma que, para ele, ambas são complementares na busca pela verdade sem se oporem entre si. Para isso ele utiliza as obras de Aristóteles para construir seu pensamento.

As obras de Aristóteles serviram de base para a construção de uma estrutura teológica católica capaz de conciliar a razão filosófica com a fé cristã.

Na visão do pensamento de São Tomás de Aquino, a razão é algo humano, sendo um dom de Deus o qual permite ao homem compreender as coisas naturais. A razão pode alcançar determinadas verdades sobre Deus e sobre a realidade. Já a fé permite conhecer verdades reveladas que ultrapassam a capacidade natural da razão.

O trabalho de São Tomás de Aquino teve tanto impacto que dela teve origem o Tomismo, corrente filosófica existente até hoje. São Tomás de Aquino aprofundou o diálogo da filosofia cristã com tradições filosóficas externas ao cristianismo, especialmente com Aristóteles e com pensadores árabes e judeus.

Sua obra permitiu contribuir para as bases do método científico e da autonomia da razão. Ela legou ao mundo a certeza de que a inteligência e o questionamento lógico são ferramentas legítimas para a busca do conhecimento e da espiritualidade.

Com relação às suas obras, temos Suma Teológica, sendo considerada uma das maiores enciclopédias teológicas e filosóficas da história. Esta obra é considerada o centro de sua produção. Ela é organizada a partir de debates e objeções. Essa obra analisa, sistematicamente, a natureza de Deus até a moral humana.

A estrutura da obra segue o método escolástico: uma questão é apresentada, são levantadas objeções, apresenta-se uma posição contrária e, então, São Tomás de Aquino formula sua resposta, respondendo posteriormente às objeções apresentadas.

Outras obras, incluem: Suma Contra os Gentios, O Ente e a Essência, Questões Disputadas sobre a Verdade, Comentários às Obras de Aristóteles, entre outras.

Um caso interessante é seu confronto com o filósofo árabe Averróis. O confronto centrou-se no intelecto.

Para Averróis, o intelecto não pertencia exclusivamente a cada indivíduo, mas possuía uma dimensão separada e comum a todos os seres humanos. Essa concepção colocava em questão a individualidade do pensamento humano e, consequentemente, a própria ideia de uma alma pessoal e imortal, como defendia o pensamento cristão.

Por sua vez, São Tomás de Aquino, em sua obra Sobre a Unidade do Intelecto, Contra os Averroístas, rebate a teoria de Averróis utilizando a lógica de Aristóteles. Na sua construção ele busca provar que cada ser humano possui uma inteligência individual e imortal. Assim cada pessoa é capaz de pensar por si mesma. Isso permitiu manter a doutrina do livre-arbítrio e da salvação eterna.

3: Ética para São Tomás de Aquino

A Ética para São Tomás de Aquino se fundamenta na ideia de que toda ação humana não é ao acaso, ela parte em função de alguma finalidade. As escolhas humanas seguem a orientação daquilo que ele próprio busca. O que ele busca, é visto como algum bem desejável.

Em seus estudos, São Tomás de Aquino concluiu que a busca do ser humano é pela felicidade. Esse é o bem desejável. Qualquer pessoa quando questionada sobre qual o fim de sua vida, ao término dos questionamentos chega na mesma resposta: felicidade.

Assim, para São Tomás de Aquino, o que o ser humano busca, de forma natural e espontânea, ainda que não perceba, é a felicidade. A felicidade é vista como algo sem limite e não efêmera. Entretanto, para ele, os bens materiais, prazeres, riquezas, poder, honras são bens, porém são bens limitados e passageiros. Por isso não são capazes de construir uma felicidade real, perfeita em si mesma.

Em sua tese sobre Ética, ele afirma que o ser humano pode desejar esses bens limitados, mas isso não o satisfaz quanto ao seu bem-estar. Afirma, em sequência, que a felicidade plena só é conquistada naquilo que é, ao mesmo tempo, perfeito, eterno e superior aos bens particulares.

Assim, a felicidade é perfeita quando o bem a qual ela provém também é perfeito. A felicidade não tem limites porque ela se fundamenta em um bem eterno. Isso faz dela um bem superior aos bens particulares. Nesse sentido, São Tomás de Aquino conclui que a verdadeira felicidade está em estar com Deus.

A Ética Tomista, está profundamente relacionada à ideia de finalidade em si mesma. O que ocorre é que cada pessoa tem suas próprias aspirações e escolhas próprias. Essa busca é feita através do uso de sua liberdade. A questão Ética surge quando o uso da liberdade humana é feita para escolher bens inferiores, em detrimento aos bens superiores, ou ainda quando busca um bem em particular de forma obstinada ou desordenada.

E aqui entra um ponto importante para São Tomás de Aquino: A RAZÃO. Para ele, o uso da razão permite distinguir entre o bem e o mal. Dessa forma consegue direcionar suas ações. Desta forma, a liberdade e a razão nos conduzem em direção ao bem. Para que isso dê os resultados esperados, a vontade deve estar alinhada com a razão.

Em termos gerais, a Ética para São Tomás de Aquino se fundamenta na relação entre razão; vontade e finalidade, onde tudo se fundamenta na liberdade que o ser humnao tem de escolher.

Aqui surge o conceito de Lei Natural. Segundo ele, a própria natureza tem regras, e essas regras são racionais e lógicas. Nesse sentido, o homem, uma criatura racional, deve explorar e utilizar essa lei inscrita na própria natureza, por isso essa lei é chamada de Lei Natural. São Tomás de Aquino estabelece uma ligação entre natureza, razão, liberdade e moralidade. Em termos tomistas: “A própria natureza tem regras, e essas regras são racionais e lógicas. É a participação da criatura racional na lei eterna, conhecida pela razão humana.”

Desta forma, como o ser humano é racional, por meio da Lei Natural, como um anteparo, ele consegue reconhecer os princípios que permitem orientar seu comportamento e conduta. No estudo de São Tomás de Aquino ele descreveu que a Lei Natural tem um único princípio universal, o qual ele chama O Primeiro Princípio da Lei Natural.

Esse princípio diz:

O Bem deve ser buscado e realizado, enquanto o mal deve ser evitado.

Para São Tomás de Aquino, a partir desse princípio o ser humano, a partir de sua razão consegue reconhecer seus deveres, o que inclui: preservação da vida; formação de uma família; educação dos filhos; a vida em meio à sociedade; a busca pela verdade e à prática do bem. A razão, em seu estudo, não necessita de uma autoridade externa, porque ela em si mesma é capaz de reconhecer os princípios e fundamentos presentes e inscritos na própria natureza.

Mas uma coisa é reconhecer o bem, outra, muito diferente, é exercê-lo. E aqui entram as chamadas Virtudes Cardeais, em um total de quatro. São elas: prudência, justiça, fortaleza e temperança.

As quatro Virtudes Cardeais são elementos que, se vividos e incorporados à nossa vida, nos permitem ter razão e escolhas que nos levem em direção ao bem.

A prudência, por exemplo, nos ajuda em nossas escolhas, ou seja, o que deve ser feito. É o uso da razão para reconhecer, em cada novo evento, qual é a ação adequada a seguir. Ou seja, ela nos permite ponderar conforme a situação e, a partir disso, tomar a escolha em direção ao bem. É algo, especialmente importante, para o indivíduo.

Já a justiça consiste em dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido, na proporção exata. Ela possui especial importância para a vida social, isso porque ela estabelece a relação correta o indivíduo e as demais pessoas. É, especialmente importante, para o coletivo, a partir do indivíduo.

A fortaleza, por sua vez, dá sustentação à capacidade de enfrentar dificuldades, ser resignado e, ante adversidades, saber suportá-las mesmo diante dos sofrimentos, desde que isso tenha relação com o bem. O ser humano virtuoso não abandona seu caminho ou seus propósitos ao se deparar com situações difíceis. É, especialmente importante, para o fortalecimento (pessoal) do indivíduo.

Por fim, a temperança. Ela se relaciona com o equilíbrio, regulando os desejos e prazeres, impedindo que estes superem ou dominem a razão. Não significa não ter prazeres, mas dar a eles a verdadeira ordem para que o bem prevaleça. É, especialmente importante, para garantir o autocontrole no indivíduo.

Com estas quatro Virtudes Cardeais, o ser humano consegue ter um comportamento em direção ao bem. Elas se fundamentam na razão humana. Além da razão e das quatro virtudes cardeais, São Tomás de Aquino traz algo que ultrapassa a razão humana que são as Virtudes Teologais. Elas são em um total de três e nos direcionam a Deus.

Enquanto as quatro Virtudes Cardeais guiam nosso comportamento através do uso da razão humana, as três Virtudes Teologais guiam o ser humano em direção a Deus, ultrapassando o que a razão humana pode conveber.

As três Virtudes Teologais são: fé, esperança e caridade. Elas constam em 1 Coríntios 13:13: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e a caridade, estes três; mas o maior destes é a caridade”.

Como mencionado, a caridade ocupa posição especialmente elevada, porque está relacionada ao amor do indivíduo para com Deus e para com o próximo.

4: Conclusão

Para São Tomás de Aquino, o ser humano deve ser guiado por duas classes de Virtudes: as Virtudes Cardeais e as Virtudes Teologais.

As Virtudes Cardeais orientam o ser humano quanto a um comportamento e conduta correta para consigo mesmo e seus semelhantes, o que o leva em direção ao bem. Elas utilizam a razão humana como forma de discernimento.

Já as Virtudes Teologais são as que orientam o ser humano em direção a Deus e são consideradas suprarracionais.

Para as duas formas de Virtudes, é necessária a existência da liberdade. Só com a liberdade o ser humano pode agir por si mesmo.

Quanto às Virtudes Cardeais, elas servem como elementos que ajudam a razão a se guiar pelo caminho do bem. A própria razão parte de um código presente na própria natureza. Para São Tomás de Aquino, o ser humano é capaz de reconhecer esse código e nele, seus próprios deveres.

De forma geral, a Ética de São Tomás de Aquino pode ser compreendida como uma Ética da finalidade e da virtude, fundamentada na razão e na lei natural e orientada para o Bem. O ser humano é livre para escolher, mas sua liberdade encontra sua verdadeira realização quando sua razão reconhece o Bem, sua vontade o escolhe e suas ações o realizam. Saber dar a devida dimensão às coisas e ordenar a vida é parte integrante da Ética tomista.

O objetivo do ser humano é ser conduzido à sua finalidade última: a felicidade em Deus.